Descrição: Um baú em madeira pintado tendo no tampo amores encenando uma dança e, na frente do móvel, uma representação do nascimento de Vénus, numa clara alusão ao Amor indicando tratar-se, provavelmente, de um baú de noivado. No tampo e no restante baú vê-se dobradiças longas com decoração de volutas. Espelho de fechadura em forma oval com decoração de arabesco à volta e trinco de nariz longo com volutas. Assenta em pés de bolacha. Ilhargas com puxador... Ver maises de argola.
"O tema central está representado por uma alegoria alusiva ao tema do mar. Do lado esquerdo tens Neptuno, deus do mar e filho de Cronos e de Reia. Como é habitual, o deus, impiedoso e com tridente, emerge do mar com o seu carro de ouro, circundado por ondas e tritões representados com cabeça e tronco humanos e caudas de peixe. Do lado direito está representada Vénus, a deusa do desejo, que brota nua da espuma do mar, sentada numa concha marinha. Esta faz-se acompanhar de tritões que tocam búzios de modo a apaziguar as águas do mar. Este tema tem suscitado a inspiração de muitos artistas e, como tal, foi representado vezes sem conta.
Nesta peça, os temas descritos simbolizam a relação da água com o amor, a sensualidade e a fecundidade. O mito representado parece tratar da união de Neptuno e Vénus do qual resulta a criação da ilha de Rodes, pois Neptuno, para além de deus do mar era também responsável pelos terramotos e outros fenómenos geológicos.
Numa outra interpretação, mais arrojada, poderíamos considerar estar na presença do tema alusiva ao triunfo de Anfitrite, uma divindade marinha raptada por Neptuno fazendo dela sua esposa. Também este tema foi representado vezes sem conta nas artes plásticas, em particular no renascimento e na época moderna. Mas a presença da concha e a própria sensualidade da deusa, representada nua, parecem todavia indicar, tratar-se da união entre o deus do mar e a deusa do erotismo, da beleza e do amor.”
(Texto de Rui Manuel Lopes Sousa Morais, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, setembro de 2013).