Descrição: Salva de pé alto em prata dourada, gravada, repuxada e cinzelada, com decoração organizada em círculos concêntricos relatando episódios bíblicos alusivos à "Justiça do Rei Salomão" e à "Visita da Rainha de Sabá" ao mesmo rei (c.970 a 930 a.C.) na primeira faixa e, cenas alusivas ao episódio de "Susana e os Velhos" (586-538 a.C.), na segunda faixa (história relatada no livro do Profeta Daniel, 13).
O centro, alteado, apresenta um medalhão com as armas plenas dos Sá, usadas pelos chefes desta família, Condes de Penaguião, mais tarde Marqueses de Fontes e Abrantes, a quem terá pertencido esta peça. O medalhão é moldurado por uma estreita faixa de motivos fitomórficos.
Na primeira faixa, o relato é apresentado em contínuo, diferenciando-se no entanto dois episódios, ambos presididos pelo rei Salomão.
No episódio da "Justiça do Rei Salomão", observa-se Salomão sentado no seu trono, elevado sobre três degraus (em alusão aos seis que são referenciados no texto bíblico); ostentando a coroa sobre a cabeça e segurando o ceptro com a mão esquerda. Salomão demonstra a sua sabedoria divina ao fazer justiça à disputa entre duas mulheres, ambas reclamando uma crainça como sendo sua. Ambas apelam ao julgamento do rei e, para descobrir a verdade este ordena que um dos seus soldados, munido de uma espada, parta a criança ao meio e dê uma metade a cada uma das mulheres. Uma delas renuncia à criança para que ela sobreviva e a outra concorda com a partilha. Salomão ordena então que a criança não seja morta e que seja entregue à primeira mulher, a sua mãe, de facto.
No segundo episódio desta primeira faixa - a "Visita da Rainha de Sabá" - observamos de novo o rei Salomão sentado sobre o trono, ao lado do qual se encontra um leão (em alusão aos dois leões que ladeavam os braços do trono e aos restantes doze que se distribuíam pelos seis degraus). Ostenta sobre a cabeça a coroa e segura o ceptro com a mão direita. A rainha de Sabá ajoelha-se à sua frente, fazendo-se acompanhar do seu séquito e camelos carregados de oferendas: especiarias, ouro e pedras preciosas.
Esta primeira faixa é rematada por um friso de recticulado.
A segunda faixa decorativa, antecedida por um sulco côncavo liso, relata a história da casta "Susana e os Velhos". A mesma é subdividida em seis sectores, separados por colunas, e a sua leitura é feita sequencialmente. As cenas são individualizadas por invulgares colunas, assentes sobre duas hastes curvas (semelhantes às representadas na Salva inv. 4807, Nº 6). A história passa-se na Babilónia e conta como Susana, mulher de Joaquim, um próspero judeu, era secretamente desejada por dois anciãos, juízes do povo, e como eles conspiraram para a seduzir. Susana costumava ir ao seu jardim tomar banho e um dia esperaram-na aí.
1) No primeiro sector, Susana é representada em pleno banho, junto a uma fonte, em forma de golfinho, que jorra água. Sobre esta fonte encontra-se um menino vertendo "óleo e unguentos" sobre o corpo de Susana. Os dois velhos precipitam-se sobre ela, procurando convencê-la a aceder aos seus desejos, ameaçando-a de denúncia por adultério caso recusasse (Daniel 13, 1-27). O pavão ao lado de Susana é uma alusão à imortalidade e ressureição de Cristo, já que o corpo deste animal era tido como incorruptível.
2) No segundo sector, surgem representados ambos os juízes que, em casa de Joaquim, denunciam a sua esposa por adultério. Susana é chamada à sala e condenada à morte (Daniel 13, 28-42).
3) No terceiro sector é representada Susana como condenada, sendo acompanhada em seu redor por soldados, que impedem a sua fuga. Inocente, Susana de mãos postas, implorou "Deus eterno, que sondais os segredos, que conheceis os acontecimentos antes que se dêem, Vós sabeis que proferiram um falso testemunho de mim. Vou morrer sem ter feito nada daquilo que maliciosamente me inventaram" (Daniel, 13). Ao centro, em cima de um estrado, é representado Daniel criança, como portador da acção divina, acusando o povo da sua cegueira. Daniel gritou poderosamente: "Estou inocente da morte dessa mulher!" (Daniel 13, 45-46). O leão atrás de Daniel é uma alusão à protecção divina. Daniel desobedeceu a um édito religioso do rei persa Dario, pelo que foi encarcerado durante uma semana na toca dos leões, da qual saíu ileso.
4) No quarto sector é representado Daniel sobre um estrado, a julgar os anciãos (Daniel 13, 49-59). Ouvindo os seus testemunhos individualmente conseguiu que entrassem em contradição. Um deles está perante Daniel e o outro é levado por dois guardas.
5) No quinto sector figuram os dois anciãos, despidos e atados de costas a uma coluna, à mercê da cólera do povo que os apedreja.
6) O sexto e último sector retrata o desfecho da história. Ao centro, Joaquim e Susana abraçados e, em seu redor, a multidão dando largas à sua alegria pelo triunfo da justiça divina e da inocência sobre a calúnia. "Logo a multidão deu grande brado e bendiziam a Deus que salva os que põem n'Ele a sua esperança" (Daniel 13, 60).
Esta segunda faixa é moldurada por friso de óvulos e duplas contas.
Bordo recortado, decorado com faixa de óvulos e entrelaços, circundada por concheados, intercalando corolas de flor molduradas por volutas.
O reverso do prato apresenta decoração de teor vegetalista organizada em dois círculos concêntricos, separados por faixa de óvulos e entrelaços. O círculo exterior apresenta três composições de grandes volutas afrontadas, ao centro das quais pende uma corola de flor flanqueada por festões de folhas. São intercaladas por profusa decoração de folhagem, outras volutas, corolas de flores e pequenos segmentos de perlado, sobre campo puncionado. Molduramento liso no contorno exterior. O círculo interior apresenta temática decorativa semelhante, com duplas volutas formando "S", profusa folhagem, festões de flores e grandes cachos de uvas.
Pé circular com molduramento côncavo liso, antecedido por faixa de pequenas bandas lisas e caneluras. Dois registos com decoração cinzelada de volutas afrontadas, folhagem e corolas de flor estilizadas.
Haste moldurada, com nó em forma de urna, decorado com caneluras verticais, folhas de acanto e volutas afrontadas. A secção superior da haste apresenta faixa com folhas lanceoladas.
Origem/Historial: O prato superior, datado da primeira metade do século XVI, assenta numa outra salva com bordo recortado e pé alto, adaptados na primeira metade do século XVIII. O medalhão central com as armas plenas dos Sá, é também de aplicação posterior, possivelmente contemporâneo da época do arranjo do reverso e do pé. Os vários componentes da peça são unidos no interior por meio de rosca.
Muito embora não se encontrem marcas em nenhum dos componentes adaptados ao prato primitivo, é de supor que este trabalho tenha sido realizado pelo ourives lisboeta António Martins de Almeida (citado entre 1699 e 1794), já que são efectivamente de sua autoria as adaptações de semelhantes pés em quatro outras peças formalmente idênticas a esta e nas quais o ourives deixou a sua marca (vd. PNA, inv. 4808, 4813, 4802 e 4801). A julgar pelas duas marcas patentes nos referidos exemplares, (AM) de finais do século XVII a c.1750 (L-122, M.A.) e (A.M.) datável de c.1720 – c.1750 (L-124, M.A.), poderemos supor que a adaptação na salva em apreço tenha sido executada no arco temporal compreendido entre finais do século XVII e 1750.
Esta peça pertenceu à família dos Sá e mais tarde veio a integrar os bens da Casa Real portuguesa passando a fazer parte do vasto conjunto da prata de aparato.
Foi inventariada no “Arrolamento do Palácio Nacional das Necessidades”, vol. 7, 1910-1912., sob a verba “16942” e em 1929 foi transferida para o Palácio Nacional da Ajuda.
Incorporação: Casa Real
Centro de Fabrico: Portugal
Bibliografia
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