Salva de pé alto

  • Museu: Palácio Nacional da Ajuda
  • Nº de Inventário: 4807
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Ourivesaria
  • Autor: Pintor (Ourives)
  • Datação: Século 16/18
  • Técnica: Prata cinzelada, repuxada e dourada
  • Dimensões (cm): Alt. 19,2 x Diâm. 34,8
  • Descrição: Salva de pé alto em prata dourada, gravada, repuxada e cinzelada, com decoração organizada em círculos concêntricos, relatando os episódios bíblicos da história de Judite e Holofernes (século VI a.C.). Este é um dos episódios do Antigo Testamento mais representado. Judite surge como heroína do povo hebreu, na sua luta contra os opressores do Próximo Oriente - o exército assírio do rei Nabucodonosor, sob a chefia do general Holofernes. O centro, alteado, apresenta um medalhão com as armas plenas dos Sá, usadas pelos chefes desta família, Condes de Penaguião, mais tarde Marqueses de Fontes e Abrantes, a quem terá pertencido esta peça. O medalhão é moldurado por uma estreita faixa de motivos fitomórficos. A história é relatada em oito sectores (na segunda faixa) que não se encontram ordenados cronologicamente e têm o seu desfecho na faixa que circunda o medalhão central (primeira faixa), pelo que a leitura se fará por esta ordem. Na segunda faixa as oito cenas são individualizadas por invulgares colunas, ornamentadas com óvulos e assentes sobre duas hastes curvas (semelhantes às representadas na salva de pé alto, inv. 4803, Nº 4). As mesmas ilustram os capítulos 7 a 15 do Livro de Judite, que relatam o cerco da cidade hebraica de Betúlia e a sua eminente rendição às mãos dos assírios, não fora a acção libertadora de Judite que astutamente se infiltrou junto do inimigo matando o seu general Holofernes. Nesta segunda faixa observa-se uma sequência de quatro episódios com cavaleiros em combate, armados de espadas e lanças. Poderão ilustrar lutas antecedentes ao cerco de Betúlia e a expansão do Império assírio pelo rei Nabucodonosor ou então referirem-se aos acontecimentos após a vitória do povo hebreu. O episódio seguinte retrata o cerco de Betúlia. Ao centro, as muralhas da cidade, circundadas de abundante arvoredo. No topo das muralhas erguem-se inúmeras figuras voltadas para o exterior e num segundo plano, o casario da cidade. Segue-se um episódio em que é representado o príncipe assírio Holofernes, ostentando na cabeça uma coroa e segurando o ceptro com ambas as mãos. Está sentado no trono e este é elevado sobre um estrado. Faz-se acompanhar do seu séquito parecendo escutar um jovem mensageiro que provavelmente lhe anuncia a chegada de Judite. A cena seguinte retrata a chegada de Judite às portas da cidade sitiada. Sob o pretexto de propor a Holofernes um plano para este conquistar Betúlia, Judite apresenta-se ricamente vestida e ornamentada de jóias para o seduzir. À entrada da cidade, os homens ofuscados com s sua beleza, deixaram-na entrar. A última cena, retrata Judite sendo conduzida à presença de Holofernes num carro puxado por cavalos. No seu contorno exterior esta faixa é percorrida por um friso de óvulos e duplas contas. Entre esta segunda faixa e a primeira, em que se dá o desfecho da história, existe um sulco côncavo liso. Na primeira faixa o relato é apresentado em contínuo. Nela figuram as muralhas da cidade, o carro em que se desloca Judite e vários elementos do exército assírio que acompanham o percurso. Holofernes recebe Judite e convida-a para um banquete, o que a mesma aceita de imediato. Durante o banquete Judite conseguiu que Holofernes se embriagasse e assim a convidasse a permanecer consigo. O fecho da história é retratado no interior da tenda onde se observa Holofernes a dormir. Esta primeira faixa é moldurada por friso recticulado. Bordo recortado, decorado com faixa de óvulos e entrelaços, circundada por concheados, intercalando corolas de flor molduradas por volutas. O reverso do prato apresenta decoração de teor vegetalista, organizada em dois círculos concêntricos, separados por faixa de óvulos e entrelaços. O círculo exterior apresenta três composições de grandes volutas afrontadas, ao centro das quais pende uma corola de flor flanqueada por festões de folhas. São intercaladas por profusa decoração de folhagem, outras volutas, corolas de flor e pequenos segmentos de perlado, sobre campo puncionado. Molduramento liso no contorno exterior. O círculo interior apresenta temática decorativa semelhante, com duplas volutas formando "S", profusa folhagem, festões de flores e grandes cachos de uvas. Pé circular com molduramento côncavo liso antecedido por faixa de pequenas bandas lisas e caneluras. Dois registos com decoração cinzelada de volutas afrontadas, folhagem e corolas de flor estilizadas. Haste moldurada com nó em forma de urna decorado com caneluras verticais, folhas de acanto e volutas afrontadas. A secção superior da haste apresenta faixa com folhas lanceoladas.
  • Origem/Historial: O prato superior, datado da primeira metade do século XVI, assenta numa outra salva com bordo recortado e pé alto, adaptados na primeira metade do século XVIII. O medalhão central com as armas plenas dos Sá, é também de aplicação posterior, possivelmente contemporâneo da época do arranjo do reverso e do pé. Os vários componentes da peça são unidos no interior por meio de rosca. Muito embora não se encontrem marcas em nenhum dos componentes adaptados ao prato primitivo, é de supor que este trabalho tenha sido realizado pelo ourives lisboeta António Martins de Almeida (citado entre 1699 e 1794), já que são efectivamente de sua autoria as adaptações de semelhantes pés em quatro outras peças formalmente idênticas a esta e nas quais o ourives deixou a sua marca (vd. PNA, inv. 4808, 4813, 4802 e 4801). A julgar pelas duas marcas patentes nos referidos exemplares, (AM) de finais do século XVII a c.1750 (L-122, M.A.) e (A.M.) datável de c.1720 – c.1750 (L-124, M.A.), poderemos supor que a adaptação na salva em apreço tenha sido executada no arco temporal compreendido entre finais do século XVII e 1750. Esta peça pertenceu à família dos Sá e mais tarde veio a integrar os bens da Casa Real portuguesa passando a fazer parte do vasto conjunto da prata de aparato. Foi inventariada no “Arrolamento do Palácio Nacional das Necessidades”, vol. 7, 1910-1912, sob a verba “16944” e em 1929 foi transferida para o Palácio Nacional da Ajuda.
  • Incorporação: Casa Real
  • Centro de Fabrico: Portugal

Bibliografia

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  • APNA, Direcção Geral da Fazenda Pública, Arrolamento do Palácio Nacional das Necessidades, vol. 7, Casa Forte, 1910-1912
  • BLAIR, Claude - The History of Silver. London: MacDonald & Co (Publishers) Ltd., 1991
  • CAETANO, Joaquim Oliveira - Função, Decoração e Iconografia das Salvas, in Inventário do Museu Nacional de Arte Antiga. A Colecção de Ourivesaria. 1º Vol.: do românico ao manuelino. Lisboa: IPM, 1995
  • COUTO, João; GONÇALVES, A. Manuel - Ourivesaria em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 1960
  • Leilão de Pintura Portuguesa, Antiguidades, Obras de Arte, Pratas e Jóias; Leilão Nº 66. Lisboa: Cabral Moncada Leilões, Out. 2004
  • SANTOS, Reynaldo dos; QUILHÓ, Irene - Ourivesaria Portuguesa nas Colecções Particulares. Lisboa: Neogravura Lda., 1974
  • XAVIER, Hugo - O Museu de Antiguidades da Ajuda: Numismática e Ourivesaria das colecções reais ao tempo de D. Luís. Revista Museus e Investigação, n.º 8. Lisboa: Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2011
  • JARDIM, Maria do Rosário; MONTEIRO, Inês Líbano - A Prata do solene aparato da Coroa portuguesa a partir da segunda metade do século XVIII. Identificação de um conjunto de 23 obras dos sécs. XVI a XVIII. Revista de Artes Decorativas, n.º 4. Porto: CITAR / UCP, 2010
  • ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - Artes da Mesa e Cerimoniais Régios na Corte do século XVI. Uma viagem através de obras de arte da ourivesaria nacional. A Mesa dos Reis de Portugal (coord. Ana Isabel Buscu e David Felismino). Lisboa: Círculo de Leitores, 2011
  • JARDIM, Maria do Rosário; MONTEIRO, Inês Líbano - A Prata de Aparato das Cerimónias Régias (a partir da 2.ª metade do século XVIII) in Actas do III Colóquio Português de Ourivesaria (UCP, 18 e 19 de Novembro 2011). Porto: Universidade Católica Portuguesa, 2012
  • SILVA, Nuno Vassallo e - Ourivesaria Portuguesa de Aparato, séculos XV e XVI. Lisboa: Scribe, 2012
  • MONTEIRO, Inês Líbano - "A Prata das Cerimónias Solenes". in RIBEIRO, José Alberto (coord.). Catálogo do Museu Tesouro Real do Palácio Nacional da Ajuda. Lisboa: Imprensa Nacional, 2023
  • CRESPO, Hugo Miguel - "As dez salvas do real aparato e a ourivesaria do seu tempo". in RIBEIRO, José Alberto (coord.). Catálogo do Museu Tesouro Real do Palácio Nacional da Ajuda. Lisboa: Imprensa Nacional, 2023
  • ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - "Istorias, Bastiães e Figuras. Na origem da ourivesaria de tradição narrativa". in RIBEIRO, José Alberto (coord.). Catálogo do Museu Tesouro Real do Palácio Nacional da Ajuda. Lisboa: Imprensa Nacional, 2023

Exposições

  • D. Luís I, Duque do Porto e Rei de Portugal

    • Palácio Nacional da Ajuda - Museu
    • 1/1/1990 a 31/7/1990
    • Exposição Física
  • Tesouros Reais

    • Palácio Nacional da Ajuda - Museu
    • 15/7/1991 a 15/10/1992
    • Exposição Física
  • Exposição de Ourivesaria Portuguesa e Francesa

    • Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, Lisboa
    • Exposição Física
  • Catálogo das Jóias e Pratas da Coroa

    • Palácio Nacional da Ajuda
    • Exposição Física
  • Exhibition of Portuguese Art, 800-1800

    • Royal Academy of Arts; London
    • 29/10/1955 a 19/2/1956
    • Exposição Física
  • Museu Tesouro Real

    • Palácio Nacional da Ajuda
    • Exposição Física

Multimédia

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