Salva de pé alto

  • Museu: Palácio Nacional da Ajuda
  • Nº de Inventário: 4802
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Ourivesaria
  • Autor: Almeida, António Martins de ; (Ourives) Autor desconhecido (Ourives)
  • Datação: Século 16/18
  • Técnica: Prata cinzelada, repuxada e dourada
  • Dimensões (cm): Alt. 19,5 x Diâm. 35,5
  • Descrição: Salva de pé alto em prata dourada, gravada, repuxada e cinzelada, com decoração organizada em círculos concêntricos, com cenas alusivas à Entrada Triunfal de Alexandre Magno na Babilónia (331 a.C.), numa alegoria aos grandes impérios da Antiguidade. O centro, alteado, apresenta um medalhão com as armas plenas dos Sá, usadas pelos chefes desta família, Condes de Penaguião, mais tarde Marqueses de Fontes e Abrantes a quem terá pertencido esta peça. O medalhão é moldurado por friso de entrelaços e flores sextafólias. A primeira faixa decorativa representa vários episódios da vida quotidiana ou cortesã numa sucessão de figuras dispostas em círculo contínuo. As figuras constituem quatro grupos, discretamente intercalados por um cubo com uma bola sobreposta. Num grupo figuram mulheres com rocas de fiar o linho e brincando com crianças; num outro, homens sentados no chão à volta de um estrado com um jarro e um copo, dois jogam às cartas e outro fuma cachimbo; num terceiro grupo figuram novamente mulheres, umas tocando viola e violino, outras dobando lã com um cesto ao lado, outras fiando e um grupo de homens à volta de uma mesa a jogar dados. O quarto grupo é constituído por um conjunto de flautistas e duas figuras sentadas. Esta primeira faixa é delimitada por friso recticulado. A segunda faixa, antecedida por um sulco côncavo liso, retrata o tema principal: a Entrada Triunfal de Alexandre Magno na Babilónia, constituída por um grandioso cortejo de figuras e soldados que acompanham Alexandre, o Grande, até à porta da cidade de Babilónia, após a batalha de Gaugamela (também conhecida por batalha de Arabela - nome de uma cidade próxima, onde derrotou definitivamente o rei persa, Dario III, c.380-330 a.C.). A porta da cidade, em forma de arco, é encimada pela inscrição "BABILONIA", observando-se para lá da muralha o seu casario. Junto a esta porta, uma figura feminina sobre um pedestal, com uma esfera na mão, poderá simbolizar a glória. O cortejo avança em direcção à porta, vendo-se em primeiro lugar o carro de Dario puxado por rapazes. No carro, rodeado de lanças e escudos, o monarca persa derrotado por Alexandre, ostenta ainda a coroa e tem as mãos atadas atrás das costas. Segue-se um grupo de soldados e figurantes transportando um tocheiro, ânforas e jarros; preciosidades confiscadas às cidades governadas por Dario: Persepolis, Parsagadae, Susa e Babilónia. Um cavaleiro segurando uma missiva e um grupo de três músicos tocando trompas antecedem o personagem fulcral deste cortejo: Alexandre Magno, segurando na mão direita o caduceu e sentado no seu carro triunfal puxado por dois elefantes com ricas cobertas sobre o dorso. O carro é acompanhado por dois pequenos músicos, um tocando lira e outro pandeireta e rodeado de grande aparato militar, figurando em fundo vários estandartes, lanças, bandeiras e troféus de guerra. Um grande estandarte oval anuncia o nome do Imperador "ALE/XAN/DRE". Seguem-se outros soldados a cavalo empunhando lanças e um rapaz tocando tambor, o qual antecede um segundo grupo de figurantes e soldados transportando, sobre andores, uma grande ânfora e jarros. Esta segunda faixa é moldurada por friso canelado. Bordo recortado, decorado com faixa de óvulos e entrelaços, circundada por concheados intercalando corolas de flores molduradas por volutas. O reverso do prato apresenta decoração de teor vegetalista ornganizada em dois círculos concêntricos, separados por faixa de óvulos e entrelaços. O círculo exterior apresenta três composições de grandes volutas afrontadas, ao centro das quais pende uma corola de flor flanqueada por festões de folhas. São intercaladas por profusa decoração de folhagem, outras volutas, corolas de flores e pequenos segmentos de perlado, sobre campo puncionado. Faixa com recticulado de quadrículas no contorno exterior. O círculo interior apresenta temática decorativa semelhante com pares de volutas afrontadas, festões de flores, profusa folhagem e pequenos cachos de uvas. Pé circular, com molduramento côncavo liso e decoração cinzelada em dois registos da bandas entrelaçadas em folhagem, pequenos quadrifólios e volutas afrontadas, intercaladas por reservas ovais. Haste com pequeno friso canelado e nó em forma de urna, decorado com quadrifólios, corolas no interior de arcaturas e volutas afrontadas. A secção superior apresenta faixa com folhas de acanto.
  • Origem/Historial: O prato superior, datado da primeira metade do século XVI, assenta numa outra salva com bordo recortado e pé alto, adaptados pelo ourives António Martins de Almeida, entre finais do século XVII e c.1720. O medalhão central com as armas plenas dos Sá é também de aplicação posterior, possivelmente contemporâneo da época do arranjo do reverso e do pé. Os vários componentes da peça são unidos no interior por meio de rosca. De António Martins de Almeida, ourives natural de Beja com oficina em Lisboa e executante de obras para o rei D. João V são conhecidos vários exemplares pertencentes a colecções, fundações particulares e museus. Na colecção do Palácio Nacional da Ajuda identificamos mais três salvas de pé alto igualmente adaptadas pela sua mão (PNA, inv. 4808, 4813 e 4801); a Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva conta com um Gomil e Bacia da barba, bem como com uma Bacia de sangria (ou da barba) com as suas iniciais (FRESS, inv. 488/1/2 e inv. 69, respectivamente) e o Museu Rainha D. Leonor, em Beja integra no seu acervo a Banqueta da Igreja da Encarnação e o Andor de São João Evangelista (MB, inv. 132) também saídos da sua oficina. Segundo Reynaldo dos Santos, este ourives será “um dos melhores artistas, dos mais fecundos e bem identificados pelas obras que se lhe podem atribuir, da primeira metade do século XVIII" (vd. SANTOS, Reynaldo dos, QUILHÓ, Irene, “Ourivesaria Portuguesa nas Colecções Particulares”, Lisboa, 1974, p. 240). Esta peça pertenceu à família dos Sá e mais tarde veio a integrar os bens da Casa Real portuguesa passando a fazer parte do vasto conjunto da prata de aparato. Foi inventariada no “Arrolamento do Palácio Nacional das Necessidades”, vol. 7, 1910-1912, sob a verba “16945” e em 1929 foi transferida para o Palácio Nacional da Ajuda.
  • Incorporação: Casa Real
  • Centro de Fabrico: Lisboa, Portugal

Bibliografia

  • AGHION, Irène; BARBILLON, Claire, LISSARRAGUE, François - Héros et Dieux de l'Antiquité. Guide Iconographique, Col. Tout L'art. Enciclopédie. Paris: Flammarion, 1994
  • TEIXEIRA, José - D. Fernando II, Rei-Artista. Artista-Rei. Lisboa: Fundação da Casa de Bragança, 1986
  • ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - Iconografia Narrativa na Ourivesaria Manuelina: as Salvas Historiadas, Dissertação de Mestrado em História da Arte, FCSH, UNL: Out. 1997
  • APNA, Direcção Geral da Fazenda Pública, Arrolamento do Palácio Nacional das Necessidades, vol. 7, Casa Forte, 1910-1912
  • CAETANO, Joaquim Oliveira - Função, Decoração e Iconografia das Salvas, in Inventário do Museu Nacional de Arte Antiga. A Colecção de Ourivesaria. 1º Vol.: do românico ao manuelino. Lisboa: IPM, 1995
  • COUTO, João; GONÇALVES, A. Manuel - Ourivesaria em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 1960
  • OREY, Leonor d' - Ourivesaria, Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva. Lisboa: FRESS, 1998
  • SANTOS, Reynaldo dos; QUILHÓ, Irene - Ourivesaria Portuguesa nas Colecções Particulares. Lisboa: Neogravura Lda., 1974
  • ALMEIDA, Fernando Moitinho de - Marcas de Pratas Portuguesas e Brasileiras (Século VX a 1887). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995
  • ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - A circulação da gravura em Portugal: reflexos na ourivesaria dos séculos XV e XVI. Actas do 3.º Colóquio de Artes Decorativas - Iconografia e Fontes de Inspiração. Imagens e Memória da Gravura Europeia. Lisboa: ESAD / FRESS, 2012
  • XAVIER, Hugo - O Museu de Antiguidades da Ajuda: Numismática e Ourivesaria das colecções reais ao tempo de D. Luís. Revista Museus e Investigação, n.º 8. Lisboa: Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2011
  • JARDIM, Maria do Rosário; MONTEIRO, Inês Líbano - A Prata do solene aparato da Coroa portuguesa a partir da segunda metade do século XVIII. Identificação de um conjunto de 23 obras dos sécs. XVI a XVIII. Revista de Artes Decorativas, n.º 4. Porto: CITAR / UCP, 2010
  • ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - Artes da Mesa e Cerimoniais Régios na Corte do século XVI. Uma viagem através de obras de arte da ourivesaria nacional. A Mesa dos Reis de Portugal (coord. Ana Isabel Buscu e David Felismino). Lisboa: Círculo de Leitores, 2011
  • JARDIM, Maria do Rosário; MONTEIRO, Inês Líbano - A Prata de Aparato das Cerimónias Régias (a partir da 2.ª metade do século XVIII) in Actas do III Colóquio Português de Ourivesaria (UCP, 18 e 19 de Novembro 2011). Porto: Universidade Católica Portuguesa, 2012
  • SILVA, Nuno Vassallo e - Ourivesaria Portuguesa de Aparato, séculos XV e XVI. Lisboa: Scribe, 2012
  • MONTEIRO, Inês Líbano - "A Prata das Cerimónias Solenes". in RIBEIRO, José Alberto (coord.). Catálogo do Museu Tesouro Real do Palácio Nacional da Ajuda. Lisboa: Imprensa Nacional, 2023
  • CRESPO, Hugo Miguel - "As dez salvas do real aparato e a ourivesaria do seu tempo". in RIBEIRO, José Alberto (coord.). Catálogo do Museu Tesouro Real do Palácio Nacional da Ajuda. Lisboa: Imprensa Nacional, 2023
  • ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - "Istorias, Bastiães e Figuras. Na origem da ourivesaria de tradição narrativa". in RIBEIRO, José Alberto (coord.). Catálogo do Museu Tesouro Real do Palácio Nacional da Ajuda. Lisboa: Imprensa Nacional, 2023

Exposições

  • D. Luís I, Duque do Porto e Rei de Portugal

    • Palácio Nacional da Ajuda - Museu
    • 1/1/1990 a 31/7/1990
    • Exposição Física
  • Tesouros Reais

    • Palácio Nacional da Ajuda - Museu
    • 15/7/1991 a 15/10/1992
    • Exposição Física
  • Exposição de Ourivesaria Portuguesa e Francesa

    • Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, Lisboa
    • Exposição Física
  • Les Trésors de l'Orfèvrerie du Portugal

    • Musée des Arts Décoratifs, Paris
    • Exposição Física
  • Catálogo das Jóias e Pratas da Coroa

    • Palácio Nacional da Ajuda
    • Exposição Física
  • Exhibition of Portuguese Art, 800-1800

    • Royal Academy of Arts; London
    • 29/10/1955 a 19/2/1956
    • Exposição Física
  • Exposição Universal de Paris

    • Campo de Marte
    • 1/4/1867 a 3/11/1867
    • Exposição Física
  • Museu Tesouro Real

    • Palácio Nacional da Ajuda
    • Exposição Física

Multimédia

  • Salva_pe_alto_4802_IFN39088 - CR.jpg

    Imagem
  • 3595.JPG

    Imagem
  • 3593.JPG

    Imagem
  • 9247.jpg

    Imagem
  • 47882 - CR.jpg

    Imagem
  • 47882_1 - CR.jpg

    Imagem