Biombo
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Museu: Palácio Nacional da Ajuda
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Nº de Inventário: 3990
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Super Categoria:
Arte
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Categoria: Mobiliário
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Autor:
Autor desconhecido (Marceneiro)
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Datação: 1662/1722
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Suporte: Madeira de pinho (?) revestida a pasta de gesso /argila?
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Técnica: Lacagem a negro; gravação; pintura policroma e dourada
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Dimensões (cm): Alt. 265 x Larg. 546 x Esp. 2
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Descrição: “Biombo de Coromandel”, composto por doze folhas, enquadra-se nas armações portáteis que a partir de cerca de 1720 eram enviadas dos portos da costa oriental indiana do Coromandel, rumo a várias partes do mundo, sobretudo ao mercado europeu. A área de produção destas peças situava-se, porém, a milhares de quilómetros, nas províncias chinesas de Fujian, Zhejiang, Jiangsu e Anhui.
Esta técnica chinesa de lacar, denominada kuancai (ou laca pintada), é originária da China da dinastia Ming (1368-1644). Era utilizada uma mistura de pó de tijolo, sangue de porco e laca não refinada como primeiro revestimento da madeira. A seguir aplicavam-se sucessivas camadas de laca refinada que após a secagem recebia elementos figurativos esculpidos. Os sulcos criados eram preenchidos com pigmentos de laca coloridos ou com tinta de óleo, finalizando-se o trabalho com um revestimento protetor.
Quanto à cena representada trata-se, segundo Peter Lam do Institute of Chinese Studies / Chinese University of Hong Kong, da festa de aniversário do General da dinastia Tang (618-907) Guo Zhiyi (697-781), um dos mais famosos generais da história da China e herói nacional. Guo Zhiyi, serviu três imperadores chineses e notabilizou-se na defesa das províncias ocidentais da China contra as incursões de povos nómadas. A personagem principal encontra-se ao centro (folha seis); os painéis do lado direito estão reservados à presença masculina e os da esquerda à feminina.
De entre os “biombos Coromandel” em coleções portuguesas este é um dos mais notáveis.
Descrição Alexandra Curvelo
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Origem/Historial: A temática deste biombo de grandes dimensões, cuja data se atribui ao reinado de Kangxi (1662-1722), leva a crer não se tratar de um trabalho comum, feito para comercialização na China, mas sim de uma encomenda particular, personalizada.
A chegada deste biombo a Portugal deve ter ocorrido no reinado de D. Luís I (1861-1889). Fotografias do período monárquico mostram-no a ser utilizado por partes (dividido ao meio): uma metade na Sala do Retrato da Rainha, no andar nobre da Ajuda, a outra no Quarto do rei D. Carlos, no Paço das Necessidades. A sua integração nas colecções reais pode ter-se dado por via diplomática, constituindo uma oferta estrangeira - vinda de uma Embaixada a Portugal - ou, por aquisição real, neste caso uma compra da Casa Real, porventura numa Exposição Universal (?), as quais tanta importância tiveram na divulgação das produções orientais.
Nos ambientes criados no Palácio da Ajuda no reinado de D. Luís I (1861-1889), conviviam lado a lado diferentes épocas e estilos, os revivalismos históricos, o exotismo e o orientalismo. A decoração, embora de origem europeia, foi sempre pontuada pela presença de peças orientais. A presença do Coromandel entre o seu recheio era, por isso, um registo de grande naturalidade.
COROMANDEL, região no sudeste da península da Índia, deu o seu nome a um tipo de laca chinesa. Banhada pelo golfo de Bengala, onde proliferavam portos de fácil acesso e que mantinham estreitas relações comerciais com a China, a costa do Coromandel expedia artigos orientais para a Europa - lacas, porcelanas, têxteis, etc. -, sem no entanto os produzir.
LACA DE COROMANDEL é, pois, a designação ocidental usada para indicar um tipo de laca inventado pelos chineses em meados do século XVII, que se caracteriza, essencialmente, por combinar três processos distintos: a lacagem, a gravação e a pintura policroma.
O principal centro do seu fabrico é Honan, província da China central, a sudoeste de Pequim.
Esta é uma técnica empregue quase exclusivamente na decoração de biombos, por norma concebidos com um numero par de volantes, seis, oito, dez ou doze. Outros móveis "Coromandel" - cómodas ou contadores - normalmente devem a sua existência ao aproveitamento de painéis de biombos antigos, no seu fabrico.
Conhecidos desde o final do período Ming (1368-1643), a grande voga dos biombos Coromandel situa-se sob o reinado do Imperador Kien-long (1736-1796), que fez executar biombos de múltiplas folhas, com mais de três metros de altura. O sucesso que estas lacas tiveram na Europa do século XVIII, onde, apreciadas pela enorme riqueza decorativa, se tornaram populares nos salões palacianos, fez crer que se tratavam de trabalhos para exportação, quando na verdade eram peças realizadas para uso interno na China. De uma maneira geral, eram encomendas do Imperador, comemorativas de acontecimentos da vida imperial, por sua vez registados com caracteres sigilares numa das folhas do biombo. Podiam também constituir uma oferta do Imperador a altos funcionários da hierarquia local. Muito frequentemente, a barra nas extremidades de cada painel, que no seu conjunto emoldura o tema central, é preenchida por signos orientais, símbolos de bons augúrios, longevidade, felicidade, etc. Reproduzidos de igual modo em diversos exemplares, costumavam ser feitos por artesãos, enquanto que o tema central era obra do Mestre.
NA TÉCNICA do Coromandel, a madeira é submetida ao mesmo tipo de preparação, cuidada, de outros tipos de laca pintada. Os painéis, em pinho, são cobertos de uma camada fina de argila sobre a qual assenta um revestimento de ervas fibrosas. Quando esta superfície está bem seca, é polida para se proceder a uma nova aplicação. No mínimo são precisas três camadas, assim sobrepostas, até se obter o fundo sobre o qual se aplica uma camada espessa de laca negra.
NA DECORAÇÃO, primeiro o artista decalca o desenho sobre a superfície lacada, depois, consoante o efeito desejado, faz uma incisão ligeira ou profunda; neste caso, às vezes, até ao fundo argiloso. Por esta razão se diz ser uma técnica comparável à da gravura sobre madeira: a decoração é gravada de modo a que os contornos do desenho fiquem em relevo, a preto. As partes escavadas são então quer douradas, quer pintadas com pigmentos de cores vivas, à base de óleo, que sobressaem por entre os contornos negros relevados. Os tons ricos e contrastantes - azul, verde, branco, amarelo e vermelho - muito vivos na origem, acabam por suavizar-se com o tempo, vindo a revelar a feição hoje adquirida pelo biombo da colecção do Palácio Nacional da Ajuda.
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Incorporação: Casa Real
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Centro de Fabrico: Fujian, Zhejiang, Jiangsu e Anhui; China
Bibliografia
- 2000 Anos de História. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001
- AAVV - Lacquer. London: Bracken Books
- BEDFORD, John - Chinese and Japanese Lacquer: Cassell
- BEURDELEY, Cécile et Michel - Le Mobilier Chinois. Le guide du connaisseur. Paris/Fribourg: Editions Vilo/Office du Livre
- GARNER, Sir Harry - Chinese Lacquer: Faber
- MOTA, Maria Manuela; LORENA, Ana Clara - Artesão Chinês. Cliente Europeu. O móvel chinês de influência ocidental em colecções reais e particulares portuguesas. Lisboa: Missão de Macau, 1999