Prato de água-às-mãos

  • Museu: Palácio Nacional da Ajuda
  • Nº de Inventário: 5161
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Ourivesaria
  • Autor: Autor desconhecido (Ourives)
  • Datação: 1495/1525
  • Técnica: Prata dourada cinzelada e gravada
  • Dimensões (cm): Alt. 4,5 x Diâm. 57,5
  • Descrição: Prato de água-às-mãos manuelino, em prata dourada, com típica decoração tardo-gótica, claramente expressa na abundância dos motivos decorativos que em grande profusão preenchem exaustivamente as três faixas concêntricas que a constituem. Os episódios nele retratados estão perfeitamente circunscritos e individualizados uns em relação aos outros, contrariando a aparente desordem da sua exaustão decorativa. Estruturalmente apresenta um centro alteado e uma aba horizontal sobrelevada. Os motivos aqui figurados correspondem não só a temas bíblicos, mas também a temas da Antiguidade Clássica, figurando ainda os vícios e as virtudes humanas, uns e outros, devidamente legendados com inscrições incisas em filacteras. À semelhança do prato inv. 5164 (Nº1), os mesmos foram também seleccionados do "Liber Chronicarum", incunábulo impresso na Alemanha e vulgarmente conhecido por "Crónica de Nuremberga" (publicada a 12 de Julho de 1493, em Nuremberga), reproduzindo as gravuras relativas à "Quarta Idade do Mundo" (Andrade, 1997). O centro, alteado, apresenta um medalhão circular de aplicação posterior (e amovível), com as iniciais góticas "MF" assentes num escudo peninsular listado na vertical (que de acordo com o código heráldico corresponderá ao vermelho da bordadura do escudo das armas portuguesas), tendo um dragão como timbre (o dragão heráldico das armas portuguesas). Estas iniciais poderão corresponder ao monograma de carácter afectivo, dos reis D. Maria II e D. Fernando de Saxe Coburgo. O medalhão é delimitado por um cordão de folhagem e este moldurado por uma coroa de folhas de acanto. Na primeira faixa decorativa estão representadas as doze Sibilas, todas elas identificadas pela palavra escrita em português medievo, incisa numa filactera que as contorna. Da esquerda para a direita e de cima para baixo, são representadas pela seguinte sequência: 1) "SEbILIA ALbVME[?]RI"; 2) "SEbILIA ERILTOMESEIM III" [?]; 3) "SEbILIA dIMETAS"; 4) "EILPEISIGA" [ou "HILPEISIGA]; 5) "SEbILIA VINEAPROF" [?]; 6) "SEbILIA ATEREbA" [?]; 7) "SEbILIA TERBVTIM"; 8) "SAbILIA CVMEA"; 9) "SAbILIA PETOMAVIRI" [ou DETOMAVIRI"] ; 10) "LIbI[?]AASV" [4ª letra: um "E" invertido; última letra: um "V" invertido]; 11) "SEbILIA FRIEGIMETAM"; 12) "IXFEMONEAN" Esta faixa decorativa é delimitada por um cordão de folhagem. Na segunda faixa decorativa representam-se as sete virtudes personificadas por uma figura feminina que, à excepção de um caso, se encontra sempre sentada, ladeada, à sua direita por um anjo e à esquerda por um demónio figurado sob as mais bizarras formas. Estas sete representações são delimitadas por caules de folhagem que se entrelaçam uns nos outros, e encimadas por uma faixa de querubins. Da esquerda para a direita, e de cima para baixo, as virtudes apresentam-se pela seguinte sequência (Andrade, 1997): a) A abundância ("ABONDANC", inciso sobre a filactera). A figura feminina surge com os braços estendidos para baixo, jorrando por terra moedas que abundantemente caem dos dois sacos que tem nas mãos. b) A castidade ("CASTIDADE", inciso sobre a filactera). A figura feminina é coroada pelo anjo, segurando na sua mão direita uma ramada e na esquerda uma pomba. c) A abstinência ("ABONDAMO", inciso sobre a filactera). A figura feminina, neste caso, de pé, segura na mão direita uma ramada [?] e voltando a face para o seu lado esquerdo, olha para o monstro que enfia pela boca um espeto com um bocado de carne. Trata-se da representação da abstinência através do seu contrário: a gula simbolizada pelo diabo, da qual o anjo tenta desviar a atenção puxando-lhe pelo ramo que tem na mão. d) A caridade ("CARIDADE", inciso sobre a filactera). A figura feminina partilha o seu alimento com um homem que se ajoelha a seus pés. e) A humildade ("VMILDADE", inciso sobre a filactera). A figura feminina com as mãos postas em oração e um cordeiro ao colo, tem do seu lado direito o anjo que lhe apresenta uma caveira (em alusão à efemeridade da vida) e do lado esquerdo o diabo que lhe acena com um objecto redondo que poderá representar um espelho (em alusão ao luxo e à vaidade). f) A diligência ("DILIGENCIA", inciso sobre a filactera). A figura feminina é representada fiando uma roca de linho. g) A mancidade ("MANCIDADE", inciso sobre a filactera; "INR", inciso sobre a haste da cruz que o anjo carrega). A figura feminina segura na sua mão esquerda um ramo e, com a direita ampara uma pomba pousada sobre o colo. Do seu lado direito o anjo carrega uma cruz às costas, sendo ele o próprio exemplo da virtude, suportando as adversidades e infortúnios da vida. Na treceira faixa decorativa representam-se os sete pecados capitais, delimitados por molduras de folhagem e identificados através de uma legenda incisa sobre uma filactera. A intercalá-los representam-se temas bíblicos e da Antiguidade. Da esquerda para a direita e de cima para baixo as representações sucedem-se pela seguinte ordem: h) Ira ("IRAA", inciso sobre a filactera). Dois homens, frente a frente, discutem. Cena em que se representam vários homens a cavalo, crianças e um camelo aparelhado com fardos. Despedem-se de um ancião que na extremidade direita surge à porta de uma casa. Este episódio poderá representar a partida dos israelitas do Egipto, no momento em que atendem às instruções de Moisés [?]. i) Inveja ("EMVEIA", inciso sobre a filactera). Um homem bebendo de uma taça sob o olhar cobiçoso do que se encontra ao seu lado. Um grupo de figuras de entre as quais se destaca um jovem personagem real a cavalo e um homem cativo, preso por uma corda, de braços amarrados e olhos vendados, sendo açoitado por um soldado. Um outro personagem transporta uma criança às costas. Trata-se da representação da captura do rei de Jerusalém - Joaquim - por Nabucodonosor, rei da Babilónia. Gravura da Crónica de Nuremberga, Quarta Idade, fl. LXIII. j) Luxúria ("LVXVRIA", inciso sobre a filactera). Um homem e uma mulher ricamente trajados entrelaçam os braços. Um conjunto de cavaleiros com armaduras e lanças capturam um soldado sem elmo, de longos cabelos no ar, junto a uma árvore. A cena retrata a vitória de David sobre Absalão, quando este montado numa mula ficou com a cabeleira presa na espessa folhagem de uma árvore. l) Gula ("GULAA", inciso sobre a filactera). Dois homens comem e bebem junto a uma mesa repleta de alimentos. Um conjunto de guerreiros de armadura e capacete observam uma mulher que mexe nos cabelos de um homem adormecido cuja cabeça repousa no seu colo. Trata-se do episódio de Sansão e Dalila, em que esta sabendo que o segredo da sua força reside nos longos cabelos, se prepara para lhos cortar. m) Avareza ("AVAREN/TO", inciso sobre a filactera). Dois homens, um segurando na mão uma moeda e, o outro, um saco de dinheiro. À frente do primeiro, um cofre. Ao centro do episódio destaca-se a figura de um rei sentado no trono e segurando o ceptro na mão esquerda. De um lado, vários homens, um deles com uma espada na mão, e uma mulher com uma criança pela mão. Do outro lado, vários homens, uma mulher de joelhos e uma criança deitada no chão. Trata-se da representação da Justiça do rei Salomão. Gravura da Crónica de Nuremberga, Quarta Idade, fl. XLVIIv. n) Soberba ("SO[B]ERbA", inciso sobre a filactera). Um homem com armadura e capacete empunhando uma espada, defronte de outro que, com a mão sobre o peito, parece querer desculpar-se. Uma mulher montando sobre as costas de um homem de gatas, segurando as rédeas que envolvem a cabeça deste. À esquerda um jovem coroado assiste à cena através da janela de um castelo. Trata-se da história de Fílis (ou Campaspe) e Aristóteles. Fílis terá ouvido as advertências de Aristóteles a Alexandre sobre a malícia feminina, pelo que decide vingar-se através, precisamente, de uma manobra ardilosa. Seduz Aristóteles e obriga-o a dar provas do seu amor deixando-a cavalgar às suas costas. Tudo foi planeado de maneira a que Alexandre estivesse a assistir. o) Preguiça ("PREGICA", inciso sobre a filactera). Um velho e uma criança (mulher?) lado a lado. Esta última parece estar a roubar-lhe algo, introduzindo as mãos dentro do casaco. Episódio em que se representa ao centro uma mulher descoberta, sentada num trono com as saias levantadas. Um homem ajoelhado aos seus pés, segura um pau na mão esquerda e um recipiente na direita. Assistem a esta cena homens leigos e religiosos. Poderá tratar-se da representação de uma imagem bíblica sobre o adultério ou do episódio da Papisa Joana, tendo um filho. Esta terceira faixa decorativa é rematada por uma moldura de escamas, uma faixa de motivos fitomórficos e a orla contornada por um registo de meia cana lisa.
  • Origem/Historial: Fazem parte do acervo do PNA dois outros pratos de água-às-mãos formalmente semelhantes a este, com as iniciais góticas "MF" aplicadas ao centro, mas de iconografia diversa (invs. 5164 e 5167). Estes pratos ornamentavam as paredes do Gabinete de Trabalho do rei D. Fernando II, no Palácio das Necessidades, como o testemunham duas fotografias datadas de 1886 (vd. Bibliografia - Manuel H. Côrte-Real, O Palácio das Necessidades, p. 51 e D. Fernando II. Rei- Artista, Artista-Rei, pp. 203 e 206). Mais tarde, em 1903, encontravam-se também a decorar o quarto do rei D. Carlos no qual ficou instalado o rei Eduardo VII da Grã-Bretanha por ocasião da sua visita a Portugal (vd. Manuel H. Côrte-Real, O Palácio das Necessidades, p. 135; O Occidente, Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro, Lisboa, 10.4.1903, p. 75). Em 1910 decoravam os aposentos do rei D. Manuel II, ocasião em que o prato em apreço foi arrolado sob a verba "1480" ("Arrolamento do Palácio Nacional das Necessidades", vol. 1, 1910-1912). Em 1931 foi transferido para o Palácio Nacional da Ajuda. Integra o vasto conjunto de prata de aparato proveniente dos bens da Casa Real portuguesa.
  • Incorporação: Casa Real
  • Centro de Fabrico: Portugal

Bibliografia

  • AGHION, Irène; BARBILLON, Claire, LISSARRAGUE, François - Héros et Dieux de l'Antiquité. Guide Iconographique, Col. Tout L'art. Enciclopédie. Paris: Flammarion, 1994
  • ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - Iconografia Narrativa na Ourivesaria Manuelina: as Salvas Historiadas, Dissertação de Mestrado em História da Arte, FCSH, UNL: Out. 1997
  • APNA, Direcção Geral da Fazenda Pública, Arrolamento do Palácio Nacional das Necessidades, vol. 1, 1910-1912
  • CAETANO, Joaquim Oliveira - Função, Decoração e Iconografia das Salvas, in Inventário do Museu Nacional de Arte Antiga. A Colecção de Ourivesaria. 1º Vol.: do românico ao manuelino. Lisboa: IPM, 1995
  • CÔRTE-REAL, Manuel H. - O Palácio das Necessidades. Lisboa: Chaves Ferreira Publicações, S.A., 2001
  • COUTO, João; GONÇALVES, A. Manuel - Ourivesaria em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 1960
  • D. Fernando II. Rei-Artista, Artista-Rei. Lisboa: Fundação da Casa de Bragança, 1986
  • DUCHET-SUCHAUX, Gaston; PASTOREAU, Michel - La Bible et Les Saints. Paris: Flammarion, 1994
  • HALL, James - Dictionary of Subjects and Symbols in Art. Londres: Ed. John Murray, 1986
  • ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - A circulação da gravura em Portugal: reflexos na ourivesaria dos séculos XV e XVI. Actas do 3.º Colóquio de Artes Decorativas - Iconografia e Fontes de Inspiração. Imagens e Memória da Gravura Europeia. Lisboa: ESAD / FRESS, 2012
  • ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - A Ourivesaria de aparato e as artes da imprensa ao tempo do rei D. Manuel I. Uma abordagem. Actas do I Colóquio Português de Ourivesaria. Porto: Círculo Dr. José de Figueiredo / Fundação Eng.º António de Almeida, 1999
  • XAVIER, Hugo - O Museu de Antiguidades da Ajuda: Numismática e Ourivesaria das colecções reais ao tempo de D. Luís. Revista Museus e Investigação, n.º 8. Lisboa: Instituto de História da Arte / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2011
  • JARDIM, Maria do Rosário; MONTEIRO, Inês Líbano - A Prata do solene aparato da Coroa portuguesa a partir da segunda metade do século XVIII. Identificação de um conjunto de 23 obras dos sécs. XVI a XVIII. Revista de Artes Decorativas, n.º 4. Porto: CITAR / UCP, 2010
  • ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - Artes da Mesa e Cerimoniais Régios na Corte do século XVI. Uma viagem através de obras de arte da ourivesaria nacional. A Mesa dos Reis de Portugal (coord. Ana Isabel Buscu e David Felismino). Lisboa: Círculo de Leitores, 2011
  • SILVA, Nuno Vassallo e - Ourivesaria Portuguesa de Aparato, séculos XV e XVI. Lisboa: Scribe, 2012
  • CRESPO Hugo Miguel (ed.), À Mesa do Príncipe. Jantar e Cear na Corte de Lisboa (1500-1700): prata, madrepérola, cristal de rocha e porcelana, Lisboa, AR-PAB, 2018
  • XAVIER, Hugo - "Propriedade Minha": ourivesaria, marfins e esmaltes da coleção de D. Fernando II, Coleções Em Foco, Palácios Nacionais, Sintra, Queluz, Pena, n.º 4, PSML, 2022. Disponível online em www.parquesdesintra.pt
  • XAVIER, Hugo - "Entre pai e filho: As coleções de ourivesaria de D. Fernando II e de D. Luís I". in RIBEIRO, José Alberto (coord.). Catálogo do Museu Tesouro Real do Palácio Nacional da Ajuda. Lisboa: Imprensa Nacional, 2023
  • ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - "Istorias, Bastiães e Figuras. Na origem da ourivesaria de tradição narrativa". in RIBEIRO, José Alberto (coord.). Catálogo do Museu Tesouro Real do Palácio Nacional da Ajuda. Lisboa: Imprensa Nacional, 2023

Exposições

  • Tesouros Reais

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    • 15/7/1991 a 15/10/1992
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    • 29/10/1955 a 19/2/1956
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