Cómoda
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Museu: Palácio Nacional da Ajuda
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Nº de Inventário: 528
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Super Categoria:
Arte
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Categoria: Mobiliário
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Autor:
SORMANI, Paul (Marceneiro)
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Datação: 1867/1901
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Suporte: Interior em carvalho francês
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Técnica: Madeira torneada, recortada, embutida, polida; bronze fundido e cinzelado, dourado a mercúrio
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Dimensões (cm): Alt. 92,5 x Larg. 192,5 x Prof. 67,5
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Descrição: Cómoda com dois gavetões (sem entrepano), com tampo em mármore brecha policromo; frente e ilhargas contramoldadas; quatro prumadas curvilineas, tendo as da frente a curvatura pronunciada ao nível do joelho. Remate inferior do alçado principal ondulado, com recorte semi-circular ao centro, decorado com uma concha em bronze, na qual se esconde a fechadura. Nas ilhargas, o ondulado do remate inferior é assimétrico.
Móvel inteiramente folheado e marchetado com madeiras exóticas e pau-santo, num padrão geométrico em madeiras de tom claro-escuro alternado: uma malha estreita de losângulos, cada um com uma flor mais escura no seu interior. Em todo o móvel a madeira é utilizada de modo a aproveitar o jogo/desenho dos seus veios, de modo a criar reservas que ritmam e acompanham/ modelam toda a estrutura.
Tem a frente, ilhargas e sapatas, decoradas com ferragens em bronze dourado de notável qualidade, de enorme mestria no cinzel e na adossagem à peça: folhagem de grande dinamismo e plasticidade, serpenteante e com concheados, disposta assimetricamente; animais fantásticos (dragão alado) nas chutes. Os quatro pés são revestidos com temática de acanto; entre estes e as chutes, cobrinto a aresta viva dos montantes dianteiros, corre um friso de bronze liso.
Os dois puxadores de cada gaveta nascem da folhagem que serpenteia pela frente; ao integrar a própria decoração em bronze, a sua função passa despercebida.
A tranca do móvel decorre de uma fechadura única, existente no segundo gavetão: quando esta se fecha, tranca simultâneamente os dois.
O tampo, em mármore, é saliente e tem o bordo com uma aresta viva seguida por contorno boleado.
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Origem/Historial: Adquirida pela rainha D. Maria Pia a Paul Sormani, provavelmente por ocasião da viagem de 1901.
Nesta data foram enviadas para a rainha várias fotografias de cómodas (mas não a desta).
Paul Sormani (1817-1877), ebéniste francês eleito pela elite parisiense e fornecedor da casa imperial francesa, era especializado na reprodução de móveis Luís XV e Luís XVI. Teve como pares de ofício nomes como os de Henry Dasson (1825-1896), G. Durand (1839-1920), François Linke (1855-1946) e Alphonse Giroux (act. 1838-1867), igualmente fornecedores da Coroa, estabelecidos em Paris. Entre os Mestres setecentistas por si fielmente seguidos, destacam-se Charles Cressent (1685-1768) e Jean-Henri Riesener (1734-1806).
No Palácio da Ajuda existem diversas obras suas. Desde mobiliário - cómodas, secretárias, mesas, biombos e vitrines - a estojos com serviços de toucador, toilette e piquenique, comprados por D. Maria Pia directamente na loja, durante viagens realizadas ao longo do reinado, ou encomendados a partir de Lisboa, por intermédio de catálogos e fotografias remetidas pelo estabelecimento comercial de Paris.
Italiano, natural de Canzo, na região de Veneza (província de Como na Lombardia), Paul Sormani casa em 1847 com a francesa Ursule Marie-Philippine Bouvaist e instala-se em Paris. Neste mesmo ano já se conhece a sua primeira oficina, no número 7 cimetière Saint Nicolas; em 1854 muda-se para o número 114 rue du Temple; e, finalmente, em 1867, fixa-se no número 10 rue Charlot, onde exerce até morrer. Após 1877, o filho Paul-Charles Sormani e a mulher mantêm a oficina da rue Charlot aberta. Só em 1914, quando se associam à casa Thiebault frères, se estabelecem no número 134 boulevard Haussman, que encerra em 1934.
De início especializado em nécessaires, malas e estojos de viagem, é fundamentalmente a apartir de 1867 que começa a dedicar-se mais ao fabrico de mobiliário, especializando-se nos petits meubles de luxe et de fantaisie, como o próprio identificava. Uma patente sua registada em Inglaterra, a 26 de Novembro de 1852, pela invenção de um "estojo de viagem aperfeiçoado", indica-nos não só a criatividade e originalidade que detinha na matéria, como o facto, aparentemente desconhecido, de ter tido loja em Londres. Mas foi através do mobiliário e da sua mestria em ébénisterie, que o seu nome se afirmou.
Logo dois anos depois de ter actividade aberta em Paris, em 1849, participou na Exposição Industrial realizada na cidade, ganhando uma medalha de Bronze. A esta seguiram-se: a Exposição Universal de 1855 (Paris), onde lhe foi atribuida a medalha de prata de Primeira Classe; a de Londres, 1862, onde recebeu uma medalha de 2º Lugar e, finalmente, a 2ª Exposição Universal de Paris, em 1867, na qual apresentou móveis pequenos de luxo. Nesta mostra recebeu a medalha de Prata, tendo a sua participação ficado célebre e descrita no catálogo da exposição por "[...] toda a sua produção revelar uma qualidade de execução de primeiríssima ordem" (Ledoux-Lebard pg. 583) distinção que o acompanhou até ao final da vida.
in artigo MCRA
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Incorporação: Casa Real
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Centro de Fabrico: França
Bibliografia
- ANDRADE, Maria do Carmo Rebello de - Mobiliário da Época de Napoleão III nas colecções do Paço da Ajuda, in Mobiliário Português - Actas do I Colóquio de Artes Decorativas (ESAD/FRESS, 27 e 28 Setembro 2007). Lisboa: Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, 2008 (pp. 127 a 139)
- BACCHESCHI, Edy - Les Ébénistes du XIXe Siècle. Paris: Payot, 1987
- Le Mobilier Français du XIXe Siècle 1795-1889. Dictionnaire des Ébenistes et des Menuisiers. Paris: Les Éditions de l'Amateur, 1989
- LEDOUX-LEBARD, Denise - Le Mobilier français du XIX siècle, 1795-1889. Dictionnaire des Ébénistes et des Menuisiers. Paris: Les Éditions de l'Amateur, 1989