Descrição: O plano mais próximo é preenchido, à esquerda por uma figura de guerreiro, aparentemente sentada, vestida com traje militar do período clássico, que segura na mão esquerda um bastão - símbolo das chefias militares - e assenta a outra num escudo de tipo alemão; à direita, sobre uma mesa, está um grande vaso pousado numa salva, cujos reflexos, produzidos pelo clarão da tocha, lhe realça o precioso dourado. No plano seguinte, centra-se o grupo pr... Ver maisincipal da composição, que ocupa os dois terços da mesa mais próximos do observador. A cena, propositadamente iluminada pela luz do candelabro e das velas, revela o conjunto de cortesãos e cortesãs que, no festim, acompanham o rei Baltasar. Este, à cabeceira, olha perplexo para a profética inscrição que uma mão humana acaba de traçar na parede oposta do salão: MANE THETEL PHARES. Ao seu lado esquerdo, a rainha parece querer confidenciar-lhe algo. De ambos os lados da mesa, os convivas aparentam pouco ou nenhum interesse pelo estranho acontecimento ocorrido, ocupando-se antes em conversas de ocasião ou centrando a sua atenção nas ricas peças da baixela e no vinho que dois criados - um de cada lado - vão servindo. Ao fundo, no alto da tribuna, um jovem sustenta um archote, originando um ponto de luz que ilumina a inscrição, os três músicos e, em baixo, a peça grande da baixela que é levada para a mesa.
Origem/Historial: Embora desconheçamos a data da aquisição da peça por D. Luís, sabemos, através de uma etiqueta colada no verso, que pertenceu ao Conde da Atalaia. De facto, nela pode ler-se: "Nº 3 Conde d'Atalaya Nº 20 R". Como o quadro não consta dos catálogos da Galeria de Pintura de 1869 e de 1872, mas já integra a lista de partilhas de bens, por morte de D. Luís (1889), é lícito supor que terá sido adquirido entre 1872 e 1889.
No verso, em... Ver mais cima e à esquerda, tem uma etiqueta com o n.º 134; à direita, há mais duas etiquetas, uma com as letras MRP, a outra com a inscrição 27 J. Na parte inferior direita da grade, noutra etiqueta, consta o n.º de inventário da obra (486) e, numa outra, como ficou dito, a referência ao Conde da Atalaia.
O quadro recebeu o n.º 47 na lista de partilha de bens, por morte de D. Luís e foi herdado por D. Carlos.
A composição retrata um episódio bíblico, narrado em Daniel, 5, 1-30, que pode resumir-se assim: Baltasar, rei dos Caldeus, ofereceu um banquete aos seus conselheiros. Beberam muito vinho, que foi servido na baixela que Nabucodonosor havia saqueado no Templo de Jerusalém. Louvaram depois os deuses pagãos. Surgiu então, numa parede do salão, uma mão que escreveu as palavras MENÉ TEQEL FARSIN. Baltasar ficou assustado, embora não compreendesse o significado da expressão. Perante a incapacidade dos astrólogos em decifrá-la, e a conselho da mulher, chamou Daniel. Este, após censurar o rei pelos procedimentos dessa noite, decifrou a inscrição que, afinal, profetizava o termo do seu reinado e a partilha dos seus domínios. Baltasar foi morto nessa mesma noite.
Esta temática foi largamente trabalhada quer na literatura, quer nas artes plásticas. O quadro da Ajuda tem parecenças evidentes com uma gravura de J. Mullew (1571-1628), aproveitada também por Strobel (1591-1644) para uma pintura que está no Museu do Prado (Madrid).
Incorporação: Pertenceu à colecção de pintura do Rei D. Luís
Bibliografia
Ossowski, Zdzislaw, "La «Degollación de San Juan Bautista y el banquete de Herodes», in Boletín del Museo del Prado, Tomo X, janeiro-dezembro de 1989, Madrid, 1991.