A Caça à Coruja

  • Museu: Palácio Nacional de Mafra
  • Nº de Inventário: PNM 1771
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Pintura
  • Autor: Autor desconhecido (Pintor)
  • Datação: 1715/1730
  • Suporte: Tela
  • Dimensões (cm): Alt. 135 x Larg. 100
  • Descrição: Pintura alegórica e moralista conhecida pelos títulos de “A Caça à Coruja”, “Beleza e os seus Admiradores” ou “O Espelho da Cotovia” (fr.: “La chasse à la chouette”, “La Belle et ses Adorateurs” ou “Le Miroir aux alouettes”), que no caso deste exemplar recebeu nos inventários do Palácio de Mafra a designação de "A Tentação do Diabo". Nela figura uma mulher jovem e sedutora, que se encontra no centro das atenções de um conjunto de treze pássaros com cabeças de diversas personalidades da época. A figura feminina representa a luxúria, mas também significa a personificação das doutrinas que corrompem a igreja e a sociedade. É caracterizada como uma jovem com um rosto redondo, risonha, olhar expressivo, cabelo louro solto e caido sobre as costas, encontrando-se seminua, com os seios expostos, tapando o baixo-ventre com um pano vermelho. Encontra-se numa zona de clareira, ajoelhada sobre o seu joelho esquerdo, apoiando-se num poleiro característico para aves de rapina, composto por uma estaca e um pouso em forma de bandeja. Com a mão esquerda ergue um espelho, símbolo da vaidade e da ilusão, porém, o seu olhar fita o observador num jogo de sedução. À esquerda da composição, escondido por entre os arbustos, encontra-se um sátiro (símbolo da lubricidade) que tem a mulher presa pelo tornozelo com uma fita. À direita, um camponês, com o dedo indicador da mão direita puxa a pálpebra inferior, gesto que se associa à “esperteza” de não se deixar enganar pelo chamamento da jovem, mesmo sendo ele uma pessoa de baixo estrato social e de pouca ilustração. Traz consigo um gato, junto ao seu flanco esquerdo, simbolizando a prudência. Usa chapéu de abas largas, enverga camisa branca com mangas vermelhas, calções vermelhos e gibão. Em direção a esta mulher vêm, de várias as partes do céu, pássaros com a cabeça de homem, estando outras aves pousadas em ramos, ou mesmo presas, mas todos eles lançando o olhar concupiscente à bela dama. Com o mesmo fito também um pequeno cão com cabeça humana, tenta trepar a haste do poleiro. Estes animais híbridos retratam personagens do seu tempo, identificáveis pelos adereços de vestuário e pelas coberturas de cabeça. O quadro possui moldura de casquinha dourada e entalhada com conchas, volutas e motivos vegetalistas.
  • Origem/Historial: A pintura, designada como “Caça à Coruja” evoca um tipo de caçada realizada no tempo das colheitas, usando-se um mocho, ou um bufo, para falsificar o choro das aves que, desta forma, atraídas por esse som, eram depois mais facilmente apanhadas. Este tipo de caça realiza-se de manhã, entre o raiar da aurora e o nascer do sol, ou ao entardecer, pouco tempo antes de cair o dia. A técnica de caça usa o visgo, uma seiva ou resina viscosa que, quando preparada a alta temperatura torna-se um material pastoso e pegante, com o qual se barram os galhos das árvores de modo a que os pássaros aí fiquem presos. Esta pintura tem por base uma gravura do século XVI, da autoria do italiano Giacomo Franco, desenhista e gravador veneziano. Nos seus trabalhos evidencia-se um estilo próximo de Annibale Carracci, seu contemporâneo. A gravura que serve de base ao tema das pinturas francesas, nas quais se inscreve a do Palácio de Mafra, é extremamente rara. Talvez por esse facto os catálogos não a reportem a este gravador, embora a sua assinatura na gravura em questão não deixe dúvidas quanto à autoria. Na base da gravura encontra-se a legenda: “Fuggite, incauti giovinetti. i lacci|D'un volto lusinghiero. anchorche bello,|Accio clie il rio Démon, con il cimb[ello] | Délia civella. non v' intrichi e imp[acci]” ou seja: “Fugi, jovens imprudentes, às redes de um rosto agradável e sedutor, para que o diabo, com o apelo da civetta, não te leve às armadilhas dele”. Embora a gravura original represente uma cena moral, exortando à prudência e a evitar as seduções vãs, a composição é reapropriada no século XVII e XVIII como meio de propaganda política contra a corrupção na Igreja, assinalando iconograficamente os principais mentores dos movimentos reformistas e protestantes do seu tempo. Existem várias cópias e variações do mesmo tema, tanto em posse de particulares, como de coleções museológicas. Destacam-se as peças pertencentes às coleções do Musée de Port-Royal, do Musée des Beaux-arts de Calais, datável de 1715-18, ou a do Musée des Beaux-arts de Besançon, idêntica a outra integrada na coleção particular de Jean-Jacques Lebel, datáveis de cerca de 1730. Na pintura francesa a gravura de Giacomo Franco é transmutada num poderoso testemunho político de afirmação de uma linha ultraortodoxa preconizada pelo rei Luís XIV de França, mesmo contra as determinações mais flexíveis por parte da Cúria Romana e do Papa Inocêncio XI, que se consubstancia na abolição do Édito de Nantes, a 23 de outubro de 1685, no qual se suprimiram os direitos e liberdade de culto aos huguenotes e outros grupos religiosos. Seguindo esta linha, segundo o historiador Laurent Wiart, a figura feminina que se encontra no quadro conservado no Museu de Calais poderá ser Gabrielle d'Estrées (1573-1599), amante de Henrique IV de França, dado que foi por sua influência que o rei estabeleceu o Édito de Nantes. Nesta alegoria também outras personagens são visadas, como a do padre Pasquier Quesnel (1634-1719), o principal líder dos jansenistas, identificado como o cão que está na base do poleiro e outras não identificadas. Em obras mais tardias, como a do Museu de Besançon, representa-se numa das aves o padre jesuíta Jean-Baptiste Girard (1680-1733), reitor do Seminário de Toulon, acusado de ter seduzido uma jovem noviça, simbolizando, deste modo, os membros da igreja que se deixam corromper. A obra presente nas coleções do Palácio de Mafra provém de França e integra o ambiente cultural de afirmação de uma ortodoxia religiosa, de pendor nacionalista, que é tomada em mãos dos monarcas como meio de afirmação de poder e por vezes usada como meio de desafio à própria Cúria Papal. Este processo de afirmação é preconizado por Luís XIV de França e, de forma idêntica, por D. João V em Portugal. Sobre o quadro do Palácio de Mafra é dito por Armando Ribeiro que uma das figuras no canto superior direito, com corpo de gaio, poderá representar Sebastião José de Carvalho e Melo (Conde de Oeiras), porém a afirmação é inverosímil, sendo um anacronismo evidente. A pintura, segundo o Livro do Tombo, terá sempre pertencido ao Palácio de Mafra.
  • Incorporação: Nacionalização dos bens da Coroa (Palácio de Mafra)
  • Centro de Fabrico: França

Bibliografia

  • GANDRA, Manuel J. - Icones Symbolicae (...) in Boletim Cultural '95. Mafra: CMM, Fevereiro 1996
  • PERDRIZET, Paul - La Chasse a la Chouette, Contribution a l' Histoire de la peinture satirique, La Revue de l' Art ancien et moderne, volume XXII; Aout 1907
  • BOUCHOT, Henri, “Cabinet des Estampes”, Paris, 1886
  • CASTAN Auguste, Histoire et description des musées de la ville de Besançon (Coll. Inventaire des Richesses d'Art de la France), Paris, Ed. Plon, Nourrit et Cie, 1889
  • PERDRIZET Paul, "La chasse à la chouette, contribution à l'histoire de la peinture satirique", in Revue d'Art Ancien et Moderne, Paris, Août 1907
  • SALLE Catherine, "Louis XV le Bien Aimé (1723-1740)", in L'Histoire de France, 2000 ans d'images, Paris, 1989
  • RIBEIRO, Armando Ribeiro "Terras Fradescas", Lisboa, 1933
  • Livro do Tombo do Palácio Nacional de Mafra -Cadastro dos Bens do Domínio Público (Palácio Nacional de Mafra)

Multimédia

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