Adoração dos Pastores

  • Museu: Museu de Lamego
  • Nº de Inventário: 928
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Gravura
  • Autor: Fróis Machado, Gaspar (Desenhador e Gravador)
  • Datação: 1777
  • Suporte: Papel
  • Técnica: Buril
  • Dimensões (cm): Alt. 32,5 x Larg. 21,4
  • Descrição: Estampa figurando a "Adoração dos Pastores", impressa no verso de uma folha extraída de um missal, que possui no rosto o cabeçalho "In Vigilia Nativitatis Domini" e a indicação do número de folha "15". A representação da "Adoração dos Pastores" recorre a uma curiosa combinação de elementos arquitetónicos de feição clássica com outros de caráter rústico. As asnas do telhado madeirado e forrado a feno do estábulo improvisado sugerido à esquerda, contrastam com as pilastras em ruína, mas de evidente efeito cenográfico, que enquadram as figuras principais. Ao centro da composição, para o qual converge toda a atenção, o Menino deitado na manjedoura. A Mãe, situada à esquerda, descobre-lhe delicadamente o lençol, mostrando o corpo despido e intensamente iluminado do Filho aos pastores que o vão visitar. Também à esquerda, mas num plano mais recuado, José, visivelmente mais velho que Maria, segura uma vara florida, o seu atributo mais comum. O olhar de ambos dirigido ao Menino é de genuíno enternecimento. Ainda do mesmo lado, estão representados, apenas ao nível da cabeça, o burro e a vaca. Em torno da família divina dispõem-se em semicírculo os pastores e as pastoras de corpos e gestos vigorosos, conferindo um dinamismo que se opõe à gestualidade contida e a um certo sentido de quietude e recolhimento que emanam de Maria e José. Os pastores chegam com as habituais oferendas: o da esquerda, genufletido perante a presença divina, carrega um cordeiro debaixo do braço; no solo está um cajado e depositado nos degraus um cesto com aves. À direita, uma pastora com uma criança ao colo que leva uma pomba. Do mesmo lado, de costas voltadas para o observador, um pastor-tocador, com uma gaita-de-foles debaixo do braço. Com o outro indica, num gesto de grande expressividade, o Filho de Deus. Serve de contraponto ao pastor colocado no extremo oposto, uma figura calva, idosa e visivelmente cansada, que repete o gesto da figura anterior, enquanto seca a fronte com um lenço. No plano superior, a assinalar o mundo celestial, entre uma revoada de nuvens, cabeças de anjo e dois "putti", um com um turíbulo, incensando o grupo, e o outro exibindo a habitual filactéria com a inscrição: "GLORIA IN EXELSIS DEO". Observa-se ainda pequenos apontamentos de vegetação rasteira no solo e ramos com folhagem no telhado do estábulo e a envolver a pilastra clássica da direita.
  • Origem/Historial: Não sendo conhecidas as circunstâncias que fizeram remover esta e mais duas estampas de um exemplar da edição de 1793 do "Missale Romanum" (inv. 1077), impresso na Tipografia Régia, criada em 1768, e que pertencente à coleção do Museu de Lamego, é sabido que era, como ainda é, muito comum, sobretudo entre os alfarrabistas, retalhar os livros religiosos, como forma de valorizar as estampas isoladamente. Conhecem-se diversas edições (sete, pelo menos) do "Missale Romanum", que era vendido na loja que a Impressão Régia possuía na Real Praça do Comércio, em Lisboa. Todas as edições têm o mesmo número de estampas, oito, inseridas no texto. São elas: uma "Anunciação", uma "Natividade/Adoração dos Pastores", um "Calvário", uma "Ressurreição do Senhor", uma "Ascensão do Senhor", um "Pentecostes", uma "Santa Ceia" e uma "Assunção da Virgem". O presente exemplar corresponde à "Natividade/Adoração dos Pastores". Para além desta, o Museu de Lamego possui, extraídas do mesmo missal, as estampas relativas ao "Calvário" (inv. 921) e "Ressurreição do Senhor" (inv. 909), as duas últimas abertas por Joaquim Carneiro da Silva, que dirigia a aula de gravura responsável pela decoração de todas as obras que saiam do prelo da Imprensa Régia. A "Adoração dos Pastores" foi desenhada e gravada por Gaspar Fróis Machado (1759-c.1796), que então frequentava a aula de Carneiro da Silva, a partir da pintura com o mesmo nome, executada, em 1720, pelo conceituado pintor italiano Sebastiano Conca, que se encontra no The J. Paul Getty Museum (Los Angeles). [ver http://www.getty.edu/art/collection/objects/671/sebastiano-conca-the-adoration-of-the-shepherds-italian-neapolitan-1720/]. Sobre Gaspar Fróis (ou Fróes) Machado, Ernesto Soares, o autor da "História da Gravura Artística em Portugal" refere um "Gravador de notáveis recursos a quem uma morte prematura cortou a carreira auspiciosamente encetada" (SOARES,1940:302). Natural de Santarém, onde nasceu em 1759, começou a sua aprendizagem na escola do escultor Alessandro Giusti (1715-1799), fundada em Mafra por D. João V logo a seguir à construção do convento. Ai permaneceu durante quatro anos, ao fim dos quais ingressou na aula de Joaquim Carneiro da Silva. Em 1780, três anos depois de ter assinado a estampa da "Adoração dos Pastores", em análise, parte para Roma, onde frequenta a Escola de Giovanni Volpato. No seu regresso a Portugal, torna-se irmão da Academia de S. Lucas, onde o encontramos entre 1790 e 1795. No ano seguinte, morreu vítima de um naufrágio aos 37 anos de idade, no momento em que se dirigia a Londres para estudar com Bartolozzi (SOARES, 1940:302). Gravou grande número de retratos de figuras notáveis portuguesas, e as suas estampas, com assuntos religiosos, encontram-se entre as mais belas nas coleções do país.
  • Incorporação: Desconhecido
  • Centro de Fabrico: Lisboa

Bibliografia

  • LEITE, Pedro Queiroz - O Missal da «Regia Officina Typographyca» e seu Legado na Pintura Rococó Mineira: uma Refutação à Influência de Bartolozzi. In VII Encontro de História da Arte - UNICAMP, 2011, pp. 405-415. [disponível em: http://www.unicamp.br/chaa/eha/atas/2011/Pedro%20Queiroz%20Leite.pdf].
  • SOARES, Ernesto - «História da Gravura Artística em Portugal. Os Artistas e as suas Obras». Tomo I. Lisboa: 1940.

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