Descrição: Bilha de bojo piriforme, com asa de fita, gargalo estreito e curto, fracturada no bordo; cerâmica comum, pasta micácea de cor amarelada. Este exemplar provém de contexto funerário.
Origem/Historial: A sepultura da Lameira Larga foi "encontrada a 19 de Abril 1907 no lugar da Lameira Larga, no limite da Aldeia do Bispo, (Concelho de Penamacor, distrito de Castelo-Branco) na terra do Sr. João da Costa Martins. O citado senhor, no decurso de trabalhos numa vinha, tropeçou numa caixa grande de chumbo de 1 metro de comprimento e 60 centímetros de largura. Esta caixa entrava-se dentro de um buraco aberto na rocha, esta fossa estava coberta por três barras de ferro e telhas e ladrilhos de barro. Descrição feita a partir de um relato do segundo proprietário da coleção, Dr. Adelino Pinheiro Galhardo, e é uma notícia que tem um inegável interesse de revelar um contexto bem estruturado que se conservou completamente selado desde o momento do enterramento até à sua descoberta no ínicio do século XX, apenas não eslcarecendo se estávamos perante uma sepultura de inumação, se de incineração. Já no que respeita ao facto de se tratar de uma sepultura isolada temos referência a outros vestígios de época romana, identificados na mesma época numa área próxima (Landeiro, 1965, p. 53).
"Este exemplar provém de contexto funerário; concretamente, tratava-se de uma grande urna cinerária de chumbo (100x60x60 cm), que se encontrou dentro de uma escavação praticada na rocha, aberta a pico, coberta com três varas de ferro que sustentavam uma cobertura formada por telhas e tijolos romanos; no interior da urna e além das cinzas, estavam cinco peças de prata, duas de vidro, a presente bilha e uma lucerna - espólio que hoje se conserva, parcialmente, no M.N.A." (J. Nolen)
A notícia desta descoberta foi publicada por Santos Rocha (1909, p. 44-49), a partir da observação directa, seguramente, dos cinco objectos de prata, publicando as fotografias do espólio do conjunto sepulcral, então cedidas por Francisco Augusto Costa Falcão, na época, já o terceiro proprietário da coleção.
A deposição funerária então publicada é constituída pela urna de chumbo, dentro dela encontravam-se os objectos do espólio funerário compostos por cinco recipentes de prata (um deles é esta pátera), três objectos de vidro (...), e dois de cerâmica (...)." (García y Bellido, 1949).
A publicação foi desenvolvida por Garcia y Bellido (1949), mas que segue em traços gerais a publicação de Santos Rocha, no que respeita à notícia da descoberta e ao inventário do espólio recolhido. Aquele autor, que não observou directamente o conjunto sepulcral, apresenta no seu estudo uma estampa com desenho simplificado do espólio, realizado a partir das fotografias publicadas por Santos Rocha, detendo-se na denominada pátera "Perseu contra Medusa", a qual descreveu detalhadamente.
O inventário do espólio publicado nos dois estudos não coincide exactamente com o que actualmente se conserva no Museu Nacional de Arqueologia, que só em dara muito posterior à sua descoberta foi incorporado nas suas coleções.
O Estado Português, por proposta elaborada, em 1972, então do director do Museu D. Fernando de Almeida adquiriu por despacho ministerial no ano seguinte (aos herdeiros de João da Costa Falcão, falecido em 1971, presentados pelo Engº Carlos Mascarenhas Falcão) as peças exumadas da sepultura da Lameira Larga, juntamente com os terrenos onde se situa a villa de Torre de Palma.
Se compararmos o conjunto inicialmente publicado por Santos Rocha com o inventário do que se conserva no Museu Nacional de Arqueologia atribuído à sepultura Lameira Larga verificamos que, do espólio originalmente publicado falta um prato (discus) em prata com a marca "M : M : S". (fig. 3 do estudo de Santos Rocha), não sendo do nosso conhecimento ter sido posteriormente localizada ou republicada.
A lucerna de volutas com a representação de Vitória (fig.9 do mesmo artigo), segundo vários autores está deposita no Museu Francisco Tavares Proença Júnior, de Castelo Branco. José António Ferreira de Almeida refere-a no catálogo de Lucernas Romanas em Portugal (1953, p. 92., nº 244, est. XLVI), embora não indicando a proviniência "Lameira Larga" e Manuel Leitão e Salete da Ponte (1988, p. 156, fig. 1), descrevem-na detalhadamente e relacionam-na com a sepultura da Lameira Larga.
Não podemos deixar de notar que a lucerna que Santos Rocha publicada se encontra intacta, enquanto aquela que os referidos autores atribuem à Lameira Larga se apresenta fracturada longitudinalmente, havendo uma significativa lacuna na discus. Uma análise mais atenta das váriqas fotografias coloca-nos mesmo a dúvida quanto à lucerna do Museu de Castelo Branco, que embora exiba uma representação de Vitória, pode não ser o mesmo exemplar que Santos Rocha originalmente publica.
As palavras de Landeiro na revista "Estudos de Castelo Branco" ainda contribuem para adensar mais as dúvidas ao referis que no "Museu Regional Tavares Proença, de Castelo Branco, encontra-se uma das lucernas aparecidas neste achado arqueológico, e creio que foi para ali enviada pelo Prof. Manuel Martins Leitão". (Landeiro, 1965, p.53). E também à sepultura do "caixão de chumbo" da Lameira Larga atribui Ferreira de Almeida (1953, p.166, nº 106, est. XXXVII) uma lucerna Dressel 5, informação não confirmada por Manuel Leitão e Salete da Ponte (1988, p.158 e fig. 6), que apenas confirmam a proviniência da mesma localidade: "Aldeia do Bispo". Trata-se de um simples erro ou confirmação da informação de que há afinal mais do que uma lucerna?
O que não merece qualquer dúvida é que, do espólio sepulcral da Lameira Larga que hoje se conserva no Museu Nacional de Arqueologia, apenas oito peças integram o conjunto inicialmente publicado por Santos Rocha, conforme pode ser atestado pela consulta do inventário do Museu, actualizado no presente ano. O prato "(discus)" em prata com marca "M : M : S" (fig. 3 do estudo de Santos Rocha) e a lucerna com representação de Vitória não integravam o lote então adquirido pelo Estado em 1973.
Incorporação: Pelo IPPC ao Dr. Francisco Falcão
Bibliografia
GARCIA Y BELLIDO, António - " Escultura Romanas de España y Portugal". Madrid: 1949
RIBEIRO, José Cardim (Coord) - Religiões da Lusitânia, Loquuntur saxa. Lisboa: IPM, 2002
ROCHA, Santos - "Thesouro funerario da Lameira Larga", O Arqueólogo Português, vol. XIV. Lisboa: 1909
Catálogo da Exposição "Augusto y Emerita", 2014. Museo Nacional de Arte Romano. Mérida