Elemento de protecção e agasalho, poderes mágico-simbólicos, atributos de beleza e estética, emblemas de poder e fonte de polémica, são algumas das associações habitualmente conotadas com o uso das peles.
"Pele sobre pele" apresenta um núcleo das colecções do Museu Nacional do Traje nunca antes estudado, centrado no século XX, e que pretende divulgar um material cujo uso e funções se mantiveram ao longo dos tempos, acompanhando a evolução tecnológica das sociedades, variando os usos, aplicações e tipologias segundo o contexto histórico, social e gosto pessoal do seu criador/utilizador.
De protectora a sedutora, a pele assumiu um papel de destaque na história da indumentária e do gosto, indissociável da sua textura e toque, transversal às controvérsias, tecnologias e distinções sociais.
As peles foram as primeiras roupas conhecidas do Homem, o primeiro material a servir de agasalho e protecção contra o frio. Na pré-História, a carne dos animais abatidos era usada para alimento e as peles serviam para cobrir o corpo ou dormir sobre elas. O homem do Neolítico aprendeu já a domesticar alguns dos animais de que utiliza as peles, como a cabra, o porco, o cavalo e a ovelha. As peles eram frequentemente usadas como manto ou capas e como saia envolvendo o corpo.
As peles eram amplamente usadas no Antigo Egipto como expressão de distinção social, particularmente as de leão, leopardo e de lobo. Os caçadores exibiam uma luxuosa cauda de lobo, caindo do cinto atrás, sobre a saia curta, crendo que adquiriam as características do animal durante a caçada: ferocidade, força e velocidade.
O primeiro traje documentado dos povos do Próximo Oriente surge na Suméria (c. 3000 a.C.), o“kaunakés”, uma saia comprida e larga de couro com pelo de ovelha e tufos de lã. O povo hebreu do deserto, usava o“kaunakés”de ovelha ou de cabra em torno da cintura. O Livro do Exôdo refere o uso de peles de carneiro, cabra e lontra. As peles assumiram neste período uma grande importância e os israelitas decoravam os templos com peles valiosas, oferecendo-as às Divindades.
O monarcas do Antigo Vale da Mesopotâmia faziam uso extravagante de peles ricas e preciosas. Os trajes eram confeccionados ou exibiam guarnições em pele. O chapéu alto persa coberto de pele de “astrakan”remonta a este período.
As civilizações do Mar Egeu foram grandes utilizadoras das peles com a existência já de oficinas especializadas no seu tratamento e de um dinâmico comércio de peles. Em Creta, as mulheres são representadas com longas vestes de peles. Na Grécia, baixo-relevos representam as guerreiras amazonas envegando peles com pelo.
Em Roma, a partir dos séculos III e II a.C, o comércio das peles intensifica-se. Os primeiros senadores romanos usavam peles e eram deignados de “pelleti”. Mas é somente a partir do século III d.C. que se encontram peles como ornamento de traje.
Após a queda de Roma, Bizâncio tournou-se o centro do luxo e o mercado de peles do mundo antigo. Os nobres bizantinos vestiam-se de forma luxuosa, de caras sedas forradas e guarnecidas com peles de zibelina, arminho, marta europeia e raposa.
No Extremo Oriente, as peles eram artigos de luxo na China e no Japão, usadas como roupa de cama, forradas a seda ou em forros de trajes.
O uso das peles em traje ricos na Europa medieval e renascentista ultrapassou o de todos os outros tempos. As peles eram usadas independentemente da estação do ano. As túnicas eram forradas e guarnecidas peles e existia toda uma variedade de peças em pele, como mantos, vestidos, coletes, cobertores, chapeús e luvas.
As peles preciosas eleitas pelos nobres eram a zibelina e o esquilo. A marta, a lontra e o rato-almiscarado eram de uso mais generalizado. O arminho como prerrogativa da realeza foi eleito a partir do período bizantino, mantendo-se desde então a pele dos monarcas e emblema do esplendor real.
No século XIII, os nobres e indivíduos abastados usavam peles de texugo, esquilo, coelho, rato-almiscarado e raposa, enquanto a realeza usava a zibelina, o arminho e a marta-europeia. Os menos abastados usavam pele de ovelha, lobo, bode e, mesmo, gato e cão. Data de finais do século XV o surgimento do regalo forrado com pelo e das primeiras estolas de pele de zibelina, marta e raposa.
No século XVII, os europeus trazem peles do Novo Mundo, tendo sido mesmo estabelecidos postos de trocas e comércio com os indíos. A pele de castor americano era alvo de grande preferência, usada em chapéus, regalos, luvas e guarnições.
Na Europa, o regalo mantinha-se um acessório indispensável, sendo os mais preciosos de zibelina, arminho ou esquilo. Os traje eram, na sua maioria, apenas forrados e guarnecidos com peles. Homens, mulheres e crianças usavam chapéus feitos de pele, principalmente de marta e castor.
No século XVIII, muitas cidades norte-americanas surgem como centros de comércio e são fundadas companhias com monopólios de explorações e venda de peles.
Não parece ter havido, no século XIX, carência de peles. A pele de cordeiro do Próximo Oriente impôs-se na moda com o termo generalizado de “astrakan”. Muito em voga no início do século eram as estolas de pele de chinchila, raposa branca ou lobo siberiano. A partir de 1860, os casacos e capas de inverno passaram a exibir também raposa azul e lobo. O esquilo e o coelho continuaram a ser usados, por um preço mais acessível. De entre as peles mais procuradas, especialmente para casacos femininos, contam-se as peles de foca, lontra e carneiro persa.
Assim, começaram também a ser favorecidos os casacos e capas de veludo ou pelúcia combinados com peles preciosas e surgem as primeiras imitações de peles em veludo, pelúcia, penas e penugem.
Os trajes eram raramente usados com as peles do lado exterior. Mesmo muita rara e preciosa, e pele era tradicionalmente usada como forro e guarnição, sendo apenas a partir do início do século XX que as peles são tratadas como um tecido cuja textura é exibida no exterior.
Xénia Flores Ribeiro
O século XX surgiu como um marco na história das peles, uma vez que o seu uso ultrapassou todas as expectativas sendo por isso indissociável da evolução do traje. A viragem do século foi marcada pela aplicação das peles com pelo no exterior do traje: a pele deixou de ser aplicada somente como guarnição de golas e punhos, mas exteriorizou-se remetendo os tecidos para o forro.
A procura crescente de peles levou a que, a partir de 1900, surgissem as primeiras criações em cativeiro de animais cujas peles eram mais solicitadas: chinchila, raposa e "vison". Surge também todo um sistema estruturado e organizado de produção e classificação das peles para que a caça excessiva praticada nos anos anteriores não fizesse desaparecer muitas das espécies animais.
Na primeira década do século XX, os agasalhos mais comuns eram as capas e os casacos combinados com estolas e regalos. Os tipos de pele mais utilizados na execução destes agasalhos eram o urso, o lince, a raposa e o lobo, usando-se também o carneiro, o leopardo e o ginete. O "vison" era utilizado nos agasalhos de Inverno tendo-se tornado um elemento luxuoso e requintado.
Ainda em 1911, ocorre a Exposição de Peles em Turim, cuja realização foi bem ilustrativa da actividade da época, o que permite perceber o luxo e opulência em torno da indumentária utilizada pela alta sociedade. Com a I Guerra Mundial todo este comércio sofreu um grande abalo que se fez ressentir em variados domínios, atingido sobretudo Londres, capital do comércio mundial onde se concentravam os grandes mercados de peles.
O pós-guerra fez emergir França como um grande mercado mundial de peles devido ao avanço da ciência na preparação das peles ao nível dos produtos químicos para tintagem. Tal mercado originou, em 1919, a criação da revista "Fourrures et Pelleteries" especializada na temática das peles. Em 1922, é criada a “Escola Profissional das Peles” da "Union Sindical des Fourreurs et Pelletiers", que abre cursos práticos e teóricos.
Ainda em França, no final dos anos 20, as peles estavam tão em voga que ocorreram desfiles de moda, realizando-se também exposições internacionais de animais criados em cativeiro. Na década de 30, estavam estabelecidos códigos de utilização de peles para o dia (marta, castor e carneiro) e para a noite (zibelina, arminho e chinchila). Todos estes eventos, feiras e exposições mostram a intensa actividade comercial, sindical e corporativa do ofício das peles que se estendeu durante os 20 anos que separaram as duas guerras mundiais.
Com a II Guerra Mundial registou-se um corte nas trocas comerciais das peles: a caça foi interrompida ou proibida, e na maioria dos países houve restrições na indústria e na venda das peles. Para colmatar tais restrições recorreu-se ao uso de peles mais baratas de animais selvagens comuns, tais como a lebre, a raposa e a fuinha. Outra das técnicas usadas para substituir peles raras era o tingimento, aplicado, por exemplo, ao coelho australiano, de forma a imitar a zibelina, a chinchila ou a toupeira.
Em 1946, o ofício das peles ressurgiu e estas foram novamente valorizadas e muito procuradas. Com o advento do "New Look" em 1947, a zibelina mantinha-se a rainha das peles em termos de raridade e elegância. A pele de marta apresentava-se como uma preciosa substituta dada a sua semelhança com a zibelina.
O desejo desenfreado por casacos e agasalhos de pele, disparou de tal forma que em 1950, foi necessário impor uma regulamentação à caça de determinadas espécies. Assim, a partir de meados do século, as peles passaram a ter duas proveniências distintas: a da caça com armadilhas de animais em liberdade e a de animas criados em cativeiro. A pele passou a ser considerada uma “matéria primeira” em termos de moda e uma arte em termos de confecção.
Nos anos 60, houve uma democratização no uso das peles: todas as pessoas podiam aceder a uma casaco de peles cuja imitação facilmente confundiria um amador. O aspecto estético e de moda sobrepõe-se ao aspecto prático do seu uso como mero agasalho. O facto de existirem peles baratas tornou-as adequadas a todos os momentos do dia.
Com os anos 70, há um interesse renovado pelo autêntico e pelo original. As imitações e as reproduções baratas das várias tipologias de peles caíram em desuso. Este desejo de autenticidade levou a um revivalismo da pele verdadeira e a um aumento da sua procura. Os exuberantes e dourados anos 80 apesar de pontuarem o traje com peles, fizeram da pele sem pelo – o couro - o seu principal elemento.
A década de 90 ficou marcada na história do traje como um período de explosão criativa e de auto-afirmação de muitos criadores. A voga do luxo discreto, da era de reciclagem, e da preocupação crescente com o corpo em simbiose com o ambiente conduziu a uma postura minimalista por parte dos criadores. A importância da aparência foi suplantada pelo bem-estar físico e as peles, tidas como símbolo de distinção nos anos anteriores, tornaram-se um material reprovável.
Actualmente, e perante uma nova geração de materiais e peles falsas, cortadas a laser, impressas, gravadas, elásticas, extensíveis e até laváveis à máquina, o mundo parecia assistir a uma inversão no gosto da pele sobre a pele, no entanto, parece difícil acabar com a atracção da espécie humana por este material. Na verdade, nenhum dos vários materiais sintéticos da última metade do século XX conseguiu destronar o lugar predominante das peles e o fascínio que estas exerceram na moda independentemente da questão ética do seu uso. O papel da pele foi gradualmente mudando de protector para sedutor e, nos nossos dia, é o elemento contra a uniformização e a estandardização das aparências...
Elsa Mangas Ferraz
Este texto não foi escrito ao abrigo do acordo ortográfico.
Xénia Flores Ribeiro
Elsa Mangas Ferraz
PORTUGAL. Museu Nacional do Traje ; PINTO, Clara Vaz (coord.) - Pele sobre Pele. [Lisboa] : Instituto dos Museus e da Conservação, D.L. 2012. ISBN 978-972-776-444-0.
Cândida Caldeira
Elsa Mangas Ferraz
Xénia Flores Ribeiro