Descrição: "Pedestal (...) esborcinado nas arestas e na parte esquerda do capitel. Sobre a cornija, houve uma espécie de plinto, que está picado na parte superior apresentando a meio um buraco quadrado - 11 x 11 x 10 - de bordos arredondados, com um ressalto sensivelmente a meio da profundidade, com cerca de 2cm em cada lado. Sob a cornija, uma moldura do tipo de garganta encestada, seguida de dois filetes directos. A inscrição ocupa a face dianteira do fuste, com vestígios de pancadas diversas.
Em cada uma das faces laterais, um génio alado em baixo relevo, de pé sobre uma peanha; estão muito destruídos, distinguindo-se o volume arredondado da cabeça, as asas; o da direita segura um facho com a mão direita. O fuste separa-se da base por um filete reverso seguido de moldura de garganta reverso e toro." (J d'Encarnação, 1985)
"Estes «phosphoroi» podem simbolizar o carácter salvífico do deus. Cumprimento de um voto feito pela saúde de uma mulher, revelando o cariz intrinsecamente salutífero da divindade".(J.C.Ribeiro)
M(arcus) . L(icinius?) . NI / GELLIO / DEO ENDO/ VELLICO / SACRVM PR[O] / SALVTEM / L(icinae) MARCIAN[(a)E] / FILIAE SV(a)E / V(otum) . A(nimo) . L(ibens) . S(olvit) //
Marcus Licinius (?) Nigellius - consagrado ao deus Endovellicus - pela saúde de Licinia (?) Marciana, sua filha, o voto de bom grado cumpriu.
(Leitura de J.C.Ribeiro)
Origem/Historial: O Santuário do Deus Endovélico situa-se no Monte de S. Miguel da Mota, Alandroal. Nesse local havia as ruínas de um templo cristão, cujos alicerces e paredes eram em parte constituídos por pedras pertencentes ao culto de Endovélico, tais como aras, estatuetas, bases de estátuas e de aras. No Entrudo de 1890 José Leite de Vasconcelos deslocou-se a S. Miguel da Mota e obteve do dono da herdade, Sr. Manuel Inácio Belo a necessária autorização para iniciar os trabalhos arqueológicos. Nessa altura recolheu algumas peças, que trouxe para a Bilblioteca Nacional de Lisboa, onde, à data, era Conservador. Verificou no entanto que era necessário proceder à desmontagem do edificio para se poderem recolher as melhores peças. Participou tal facto ao Inspector Geral dos arquivos e bibliotecas públicas do reino, Sr. António Ennes, que conseguiu autorização do Ministro do Reino que mandou fazer a exploração arqueológica. Foi José Leite de Vasconcelos encarregado desse trabalho, que iniciou na Páscoa desse mesmo ano. Trouxe cerca de 200 lápides (elementos arquitetónicos, fragmentos, etc.) que se depositaram na Biblioteca Nacional e foram daí transferidas para o Museu.
Incorporação: Mandato legal.
Escavações de J.L.Vasconcelos
Bibliografia
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