Ritual à abundância

  • Museu: Palácio Nacional da Ajuda
  • Nº de Inventário: 301
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Pintura
  • Autor: Machado, Cyrillo Volkmar (Pintor / Professor)
  • Datação: 1816
  • Suporte: Tela
  • Dimensões (cm): Alt. 109 x Larg. 202
  • Descrição: A pintura representa um tema alegórico/mitológico, enquadrado por árvores e vegetação diversa. Em 1.º plano, à esquerda, três figuras femininas tocando com pandeiretas e címbalos; ao centro, uma figura feminina debruçada sobre uma ânfora fumegante; à direita, um grupo de personagens constituído por uma figura fantástica/fluvial sentada sobre uma pedra, com uma criança apoiada sobre o ombro direito, e uma figura feminina a segurar uma grinalda de flores. Na composição observa-se igualmente um arco de pedra natural, encimado por uma figura infantil, a qual ostenta um cesto de flores (Sofia Braga, 2025).
  • Origem/Historial: Pintura em formato de elipse pertencente à coleção de sobreportas do Palácio Nacional da Ajuda, integra um conjunto total de oito pinturas, duas delas atualmente no Palácio Nacional de Queluz. Esta foi solicitada por João Diogo de Barros Leitão e Carvalhosa (1757-1818), 1.º visconde de Santarém, nomeado inspetor das obras reais pelo Príncipe D. João (1767-1826), em 1802. A obra articula-se com a pintura de teto, que representa o ambicionado regresso de D. João VI a Portugal, somente concretizado em 1821. A pintura insere-se nos rituais devocionais a entidades marítimas e mitológicas, para desta forma se concretizar o ambicionado regresso do rei D. João VI a Portugal, tal com Cyrillo salientou: «as deprecações e votos, que fazem as filhas do Tejo às Divindades Marítimas para que sejão propicias, ao desejado regresso de Sua Magestade» (Machado 1823, 315). Transparece um ritual que celebra a abundância, com grinaldas de flores a rodearam as personagens do lado direito. As personagens femininas do lado esquerdo empreendem um ritual com pandeiretas e címbalos, objetos que se encontram ligados aos cultos de Baco e, portanto, em conjunção com o conceito de abundância. A ninfa que possui a pandeireta na mão foi efetuada com base na gravura de Filipo Morghen (1730-1807), realizada a partir do desenho de Camillo Paderni (1715-1781), e incluída em "Le Pitture Antique D´Hercolano e Contorni incise con qualche spiegazione" (1757). A ninfa que se encontra no centro da pintura a colocar uma espécie de alimento num vaso é uma cópia bastante aproximada da pintura "Atalanta e Meleagro" (c. 1612), de Guido Reni (1575-1809), mudando somente as cores das vestes. Cyrillo pontuou a composição com elementos de repertório all`antica, tais como vasos de linguagem clássica; a disposição de objetos oriundos da antiguidade clássica como forma de complementação plástica da composição foi utilizada por Ticiano ("Baco e Ariane", 1520), Giulio Romano ("Festa de Núpcias de Psique", 1526-28) e, posteriormente, por Nicolas Poussin (1594-1665) na obra "Bacanal de Putti I" (1626). Sebastiano Ricci (1659-1734) utilizou igualmente o repertório decorativo de vasos all`antica nas suas obras: "Bacanal em honra de Pan" (c. 1716). Os artistas Pompeo Batoni (1708-1787) e Angelica Kauffmann (1741-1807), recorreram igualmente à representação de vasos, à maneira clássica, como forma de complemento da imagem. A inclusão destes objetos decorativos encontra-se intimamente ligada ao nível de erudição do artista e ao seu conhecimento do repertório variado e extenso da antiguidade clássica. Das oito telas só seis se encontram ainda no local original; as outras duas localizam-se no Palácio Nacional de Queluz (PNQ-Inv. 958/1; PNQ-Inv. 958/2): http://raiz.museusemonumentos.pt/DetalhesObra?id=998639&tipo=OBJ e http://raiz.museusemonumentos.pt/DetalhesObra?id=998638&tipo=OBJ As duas sobreportas da coleção de pintura do Palácio Nacional de Queluz ("Súplicas a Anfitrite" e "A Dança das Ninfas") foram retiradas aquando das adaptações do palácio a residência dos reis D. Luís I (1838-1889) e D. Maria Pia (1847-1911), ocultando-se desta forma as duas portas que existiriam na parede poente. De facto, na planta do piso térreo do palácio, da autoria do sub-inspetor António Francisco Rosa, é possível verificar que na parede poente da Sala do Dossel localizavam-se duas portas (Sofia Braga, 2025).
  • Incorporação: Casa ReaL

Bibliografia

  • MACHADO, Cirilo Volkmar - Colecção de Memórias. Lisboa: Imp. de Vitorino Rodrigues da Silva, 1823
  • Braga, Sofia. 2023. Cyrillo Volkmar Machado (1748-1823). Um percurso artístico singular. Caleidoscópio.

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