Spera in Deo

  • Museu: Palácio Nacional da Ajuda
  • Nº de Inventário: 303
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Pintura
  • Autor: Machado, Cyrillo Volkmar (Pintor / Professor)
  • Datação: 1817
  • Suporte: Tela
  • Dimensões (cm): Alt. 109 x Larg. 202
  • Descrição: A pintura representa um tema alegórico/mitológico, enquadrado num ambiente marítimo, com vegetação diversa, sobressaindo uma ponte “romana”; em 1.º plano, à esquerda, uma divindade fluvial montada numa criatura marítima fantástica, que aponta para a legenda "SPERA IN DEO", inscrita na pedra do arco central da ponte. No centro da composição, um grupo central constituído por um barco, conduzido à vara por um rapaz, que carrega três figuras femininas com vestes esvoaçantes; uma das figuras femininas aponta, à semelhança da divindade fluvial, para a frase latinizada "SPERA IN DEO" (Sofia Braga, 2025).
  • Origem/Historial: Pintura em formato de elipse pertencente à coleção de sobreportas do Palácio Nacional da Ajuda, integra um conjunto total de oito pinturas, duas delas atualmente no Palácio Nacional de Queluz. a 8.ª sobreporta foi solicitada por João Diogo de Barros Leitão e Carvalhosa (1757-1818), 1.º visconde de Santarém, nomeado inspetor das obras reais pelo Príncipe D. João (1767-1826), em 1802. O tema desenvolvido por Cyrillo articula-se com a pintura de teto, que representa o ambicionado regresso de D. João VI a Portugal, somente concretizado em 1821. O assunto não se inclui na temática associada aos sacrifícios, mas considerando-se antes um ato de fé. A frase latinizada "Spera in Deo", ou seja, "Confia em Deus", é retirada do Antigo Testamento, mais concretamente do Livro dos Salmos (42:6): «Porque estás triste, minha alma, e te perturbas? Confia em Deus: ainda o hei-de louvar. Ele é o meu Deus e o meu salvador». É bastante possível que a utilização desta frase esteja diretamente relacionada com o conceito de esperança relativamente ao regresso do rei D. João VI a Portugal. A frase latinizada "Spera in Deo" constava igualmente da divisa do reino de Portugal assumida por D. Manuel I (1469-1521), cujo significado remete para a crença em Deus e que devido à ligação ao “Senhor de todas as coisas”, Portugal era detentor de bem-aventurança: «E porque tanta ventura? Porque esperava em Deos. Tal he a sua Divisa. Assim hum Rei que teme a Deos, nelle espera e vive com prudencia e mansidão, concilia o amor dos povos, que amando-o como a seu Pai, o defendem com tal esforço, que como disse El Rei D. João I de Castela, se tem por impossivel que forças algumas bastem para o vencerem [D. João I]» (Divisa do Reino de Portugal 1809, 4). Assim, é plausível que a criatura fantástica esteja a transmitir palavras de esperança: porque estão tristes e se perturbam? Não sabem que acima de tudo devem confiar em Deus? Ele vos dará todo o alimento que necessitam, confiem Nele. Esta pintura exprime um sentimento de abandono, alertando ao mesmo tempo para a existência de uma força maior que protege Portugal e na qual se deve confiar acima de tudo. Não se têm dúvidas que estamos perante uma crítica velada à ausência do Príncipe D. João. O ambiente natural em que se inserem as figuras é em tudo muito semelhante às construções plásticas de Angelica Kauffmann (1741-1807) com a utilização de arcos de pedra “romanos” e vegetação que rodeia uma parte da cena. Estes ambientes já tinham sido desenvolvidos por outros artistas, como Joaquim Sandrart (1606-1688) ou Giovanni Battista Piranesi (1720-1778). Cyrillo utilizou aqui cores que não são muito usuais na sua obra, como a gama dos amarelos e laranjas, com aproximações a Nicolas Poussin (1594-1665) e Pompeo Batoni (1708-1787). Importa salientar que, em todas as pinturas cyrillianas, a personagem principal - ou a divindade à qual são dirigidas as preces ou sacrifícios - se destaca pela utilização do claro-escuro. Das oito telas só seis se encontram ainda no local original; as outras duas localizam-se no Palácio Nacional de Queluz (PNQ-Inv. 958/1; PNQ-Inv. 958/2): http://raiz.museusemonumentos.pt/DetalhesObra?id=998639&tipo=OBJ e http://raiz.museusemonumentos.pt/DetalhesObra?id=998638&tipo=OBJ As duas sobreportas da coleção do Palácio Nacional de Queluz ("Súplicas a Anfitrite" e "A Dança das Ninfas") foram retiradas aquando das adaptações do palácio a residência dos reis D. Luís I (1838-1889) e D. Maria Pia (1847-1911), ocultando-se desta forma as duas portas que existiriam na parede poente. De facto, na planta do piso térreo do palácio, da autoria do sub-inspetor António Francisco Rosa, é possível verificar que na parede poente da Sala do Dossel localizavam-se duas portas (Sofia Braga, 2025).
  • Incorporação: Casa ReaL

Bibliografia

  • MACHADO, Cirilo Volkmar - Colecção de Memórias. Lisboa: Imp. de Vitorino Rodrigues da Silva, 1823
  • Braga, Sofia. 2023. Cyrillo Volkmar Machado (1748-1823). Um percurso artístico singular. Caleidoscópio.
  • Divisa do Reino de Portugal (Spera in Deo). 1809. Impressão Régia.

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