Técnica: Prata dourada, martelada, recortada e vazada; prata branca fundida e passada à fieira.
Dimensões (cm): Comp. 10,5-12 (módulos) x Larg. 6,5-8 (módulos) x Diâm. 42-48
Descrição: Colar constituído por doze módulos idênticos em prata dourada, articulados entre si por meio de argolas e gancho com esfera de prata branca. O fecho, ou módulo central, liga-se aos colaterais por charneiras que conferem à peça maior resistência para receber o medalhão.
Cada um dos módulos referidos tem a forma de um quadrifólio alongado, em cujos ângulos se inscrevem semiesferas. O quadrifólio, vazado, encerra um losango de lados curvos; o centro é marcado por semiesfera relevada e duas folhas estilizadas e simétricas.
A ligação entre o colar e o medalhão faz-se por meio de pequenas esferas de prata transfuradas e enganchadas. O medalhão, em metal maciço, é recortado em cartela e ostenta as armas reais usadas por d. José I, encimadas por coroa fechada e circundadas por motivos vegetalistas excisos. Sob as armas, a cruz de Cristo sobre concheado.
Inclui-se também na categoria de insígnias e distintivos.
Origem/Historial: Este colar, era usado pelos "Reis de Armas", oficiais régios a quem estavam cometidas numerosas funções, nomeadamente as de acompanhamento do monarca em cerimónias públicas. O colar era usado por cima do tabardo,dalmática ou cota que completavam as insígnias da função.
No cerimonial das saídas régias, os reis de armas procediam todos os restantes, ostentavam o colar e cota com sete castelos. A cor vermelha tradicional na primeira e segunda dinastia entre as vestes do pessoal da Casa Real, voltou a seu usada a partir de D. João V, que alterou a antiga libré da Casa de Bragança (verde com galões de prata).
De acordo com antiga bibliografia, estes colares e os seus congéneres terão sido utilizados pelos três "Reis de Armas" no ano de 1775, aquando das cerimónias de inauguração da estátua equestre de D. José I, no Terreiro do Paço (Lisboa).
Os "Reis de Armas" tinham por especial missão vigiar a autenticidade dos títulos e honras da nobreza. A partir da reforma manuelina, estes passaram a ser em número de três e receberam o nome de Portugal, Índia e Algarve, sendo que o primeiro era também designado por Principal e ocupava o topo da pirâmide hierárquica, onde a ascensão só se dava por vacatura. Abaixo dos "Reis de Armas" estavam os arautos, apelidados Lisboa, Silves e Goa e, por último, os mensageiros reais: Santarém, Tavira e Cochim.
Em Portugal, o ofício da nobreza das armas nunca foi exercido por representantes da nobreza ou de elevada categoria social. Efectivamente, ao longo de Setecentos a no início do século XIX, este cargo foi frequentes vezes desempenhado por ourives, cuja eleição se atribui ao facto de saberem desenhar.
A investidura neste cargo revestia-se de grande pompa. Antes de ser baptizado pelo monarca, o novo titular tinha de prestar juramento aos Santos Evangelhos que lhe eram apresentados por outro "Rei de Armas", anteriormente nomeado. Ajoelhado aos pés do monarca e rodeado pelos seus pares, prestava juramento público. Seguidamente, eram-lhe entregues as respectivas insígnias constantes de uma cota ou tabardo de seda vermelha com guarnições de ouro e um escudo com as armas reais portuguesas.
Juramento dos Reis de armas
" Juro a estes Santos Evangelhos nas mãos de ..., rei de armas, que bem e verdadeiramente darei do livro do meu registo das armas aos nobres as armas que direitamente lhe pertencerem segundo a ordem e regimento que para ele me é dado por El-Rei, nosso senhor, que em tudo guardarei e cumprirei, e que por temor nem amor nem dádiva nem prometimento nem outro nenhum respeito não farei niso cousa que não deva, e fielmente guardarei nisso a justiça e direito da parte a que tocar. Juro asim mesmo que quando for enviado com algum embaixador que el-rei nosso Senhor enviar, serei com todo a ciudado deligente a seu serviço e fielmente farei, e cumprirei tudo o que me for mandado, e com minha cota d'armas vestida, entrarei aondequer que me for mandado por El-Rei, noso senhor, ou por seus embaixadores.
Juro de em tudo guardar e cumprir o juramento que tenho feito, quando fui baptisado e feito arauto e todas as cousas obrigações do dito juramento, e cada uma delas cumprirei , e farei fiel e verdadeiramente como no dito juramento é conteúdo.
E se o rei d'armas fosse logo feito rei d'armas e não precedesse ser primeiro arauto, fará especificamente o juramento de arauto, cada cousa por si inteiramente com juramento de rei d'armas que ha de fazer como no capítulo dos juramento dos reis d'armas é conteúdo.
Incorporação: Transferência do Palácio das Necessidades.
Bibliografia
BESSONE, Silvana - Museu Nacional dos Coches, Lisboa. Lisboa: IPM/Paribas, 1993
Catálogo da Exposição The Age of the Baroque in Portugal. Washington: Jay A. Levenson, 1993
Catálogo da Exposição Triomphe du Baroque. Bruxelles: Fond. Europalia International, 1991
MACEDO, Silvana Costa - Museu Nacional dos Coches - Roteiro, 2ª ed.. Lisboa: IPPC, 1989
Revista Equestre, nº 17. Lisboa: Dez.-Jan. 1991/92
VITERBO, F. M. de Sousa - O Rei das Charamelas e as Charamelas Reais. Lisboa: 1912