Descrição: Espaldar, assento e braços (apoio dos cotovelos) estofados e revestidos de damasco, fixado por pregaria fina de latão. Espaldar largo do tipo designado por "violonné", moldurado, com cachaço recortado e entalhado, cuja superfície de perfil côncavo é delimitada por molduras de folhagem; ao centro, motivo vegetalista disposto como um feixe de plumas; assenta em apoios curvos.
Braços horizontais, desenvolvendo-se numa linha curva que acompanha o movimento das ilhargas. Apresentam manchetos estofados para apoio dos cotovelos e extremidades que se inserem directamente nos respectivos apoios. Estes, recuados, encurvados e moldurados, embebem no aro do assento, prolongando-se lateralmente em voluta; são decorados por folhagem de acanto.
Recorte inferior das ilhargas e da frente da cintura desenvolvendo-se numa sucessão de curvas e contra curvas, acentuadas por molduras de CC e SS, com apontamentos de folhagem e, ao centro, motivo floral (amor perfeito ?). O seu recorte superior, igualmente ondulado e moldurado numa linha contínua, é realçado pela pregaria que fixa o revestimento do estofo. Os cantos da cintura sobem em bico para protecção do assento.
Pernas dianteiras galbadas e molduradas, ornando-se de folhagem de acanto nos joelhos. Pés enrolados, com socos. Na face externa das pernas traseiras observa-se idêntico tratamento decorativo. (Bastos, 1999)
Origem/Historial: Tipologicamente, estes exemplares filiam-se nos modelos franceses ditos "à la Reine", os quais se caracterizavam pelos espaldares construídos num plano direito. O "fauteil à la Reine" integrava uma categoria mais vasta, a das "sièges meublants", destinadas a ocupar uma posição rígida ao longo das paredes como, aliás, os exemplares do Museu.
Estes modelos apresentam coxins (dos assentos e dos espaldares) revestidos de tapeçaria, que, nas cadeiras do Museu, foi substituída pelo damasco vermelho (a cor mais usada nos interiores portugueses do século XVIII), bastante mais adequada à solenidade do aposento a que se destinavam.
Em Portugal, o uso de tapeçarias no móvel de assento foi bastante restrito, pois estavam, pelo seu elevado custo, fora do alcance da maioria das bolsas. Encontramo-los nalguns interiores nobres, como no antigo Paço Episcopal de Leiria, onde se encontrava um conjunto igualmente executado em nogueira, com tapeçaria no assento e no espaldar (formado por treze cadeiras e um canapé que integram actualmente o acervo do Museu Nacional de Machado de Castro).
As dezoito cadeiras destinadas aos cónegos (Inv. 380 a 397) e o cadeirão do bispo mobilavam a sala do Cabido em 1821, para o qual estes móveis terão sido certamente encomendados. No inventário desse ano figuram "na salla do Cabbido ou Do cello [ ... ] Huã Cadeira de braços goarnecida de damasco vermelha, e he de Respaldo, avaliada em quatro mil e Oitocentos reis. Dezoito cadeiras goarnecidas de damasco vermelho em muito bom uzo, avaliadas todas em cento quinze mil e duzentos reis" (Doc. I). Já em 1826, permanecem na mesma dependência, sendo descritas desse ano como "Huã cadeira grande de Damasco vermelho, uzada. Dezoito cadeiras de Damasco vermelho, ricas" (Doc. II). Em 1860, voltamos a encontrar o conjunto, sendo então mencionado como "Dezoito cadeiras de pau de cerdeira com braços e encostos e assentos de damasco vermelho em bom uso = Huma dita grande com docel e espaldar de damasco vermelho com franja de retros amarello em bom uzo" (Doc. III).
D. Joaquim de Azevedo, ao referir os interiores do Palácio recentemente reformado, refere-se-lhes dizendo: [no Paço] "Ha duas salas forradas com antigos panos de arras, uma das quaes é a do docel, com bom tapete e mobilia estofada de damasco carmezim". Quando, no início deste século, José Júlio Rodrigues retrata a residência do bispo D. Francisco José de Vieira e Brito, permaneciam as dezoito cadeiras, a cadeira do bispo e o dossel mantendo-se as preciosas tapeçarias nas paredes. (Bastos, 1999)
Incorporação: Transferência: Antigo Paço Episcopal de Lamego
Bibliografia
AZEVEDO, D. Joaquim - Historia Eclesiastica da Cidade e Bispado de Lamego. Porto: 1877
BASTOS, Celina; PROENÇA, José António - Museu de Lamego. Mobiliário. Lisboa: IPM/Museu de Lamego, 1999
GUIMARÃES, Alfredo; SARDOEIRA, Albano - Mobiliário Artístico Português (Elementos para a sua História) - I- Lamego. Porto: Marques de Abreu, 1924
IAN/TT, Mitra de Lamego, Lv.º 50, Inventário do Espolio do Ex.mo e Rev.mo Bispo D. Joze de Jezus Maria Pinto. Lamego: 1826
IAN/TT, Mitra de Lamego, Lv.º49, Inventário das Alfaias, movens, e bens de Raiz, pertencentes ao Paço Episcopal. Lamego: 1821
IAN/TT, Mitra de Lamego, Lv.º50, Inventário de todos os moveis da Mitra de Lamego feito por ordem do Governo de Sua Majestade. Lamego: 1860
LARANJO, F. J. Cordeiro - Museu de Lamego. Lamego: C.M.Lamego, 1991
QUILHÓ, Irene - "Mobiliário", in Oito Séculos de Arte Portuguesa. História e Espírito, vol. III, Dir. Reynaldo dos Santos: Ed. Notícias, 1970
RODRIGUES, José Júlio - O Paço Episcopal de Lamego. Porto: 1908