Placa (Cristo escarnecido)

  • Museu: Museu Nacional Soares dos Reis
  • Nº de Inventário: 2.9 Div MNSR
  • Super Categoria: Arte
  • Categoria: Pintura
  • Autor: Autor desconhecido (-)
  • Datação: 1575/1625
  • Suporte: Cobre
  • Técnica: Esmalte pintado sobre cobre. Contra esmalte translúcido
  • Dimensões (cm): Alt. 10,1 x Larg. 7,9
  • Descrição: Representação do episódio bíblico designado Cristo escarnecido. (Segundo: Mateus 26: 66; Marcos 14: 65; Lucas 22: 63-65) A cena decorre no interior. Cinco figuras rodeiam Cristo que, ao centro da composição, está sentado com as mãos sobre os joelhos, com uma faixa a vendar-lhe os olhos e o rosto, de frente para o observador, muito inclinado para a direita. Na sua frente, à direita, um homem calvo e barbado ajoelha. Segura um chapéu na mão esquerda atrás das costas e com a mão direita aponta dirigindo-se a Cristo. Veste uma túnica curta, cingida na cintura e tem uma bolsa suspensa no cinto atrás das costas. À direita, um homem jovem de cabelo curto, está sentado de frente para o observador e com o rosto a ¾, e as pernas cruzadas. Segura nas mãos uma escudela ou um saco aberto (?). Veste uma túnica com as mangas cingidas em três pontos, tufadas e cortadas na vertical. Um outro homem, por trás de Cristo, reclina sobre ele abraçando-o e olhando-o em pose ameaçadora, veste uma espécie de traje militar com um capacete e ombreiras sobre as mangas tufadas amplas, justas do cotovelo até ao pulso e as mãos enluvadas. De pé, por trás de Cristo , à direita há um outro homem, jovem a tocar olifante. Mais à direita um outro homem barbado, de cabelo longo e chapéu está virado para Cristo, segura na mão esquerda uma caneca e ergue o braço direito, tem a cabeça coberta com um chapéu alto. Em cada uma das três paredes que formam o espaço estão representadas portas em arco. As paredes são decoradas com traços a ouro. Na parede da esquerda corre uma cornija sobre a porta. O chão é decorado com padrão de flores de liz. A representação segue de perto a gravura de A. Dürer em que se inspira divergindo da mesma nalguns detalhes: O homem jovem sentado no chão à esquerda na gravura veste uma túnica sem mangas e calça sandálias abertas na frente; a figura da direita em frente a Cristo na gravura tem o punho fechado. Na gravura as paredes são lisas e há, à direita da porta um painel de enrolar suspenso, ausente na placa. Placas semelhantes, com representação de Cristo escarnecido segundo a gravura da Pequena Paixão de Dürer e passíveis de atribuição ao mesmo atelier, podem encontrar-se: Na Wallace Collection (C596); no Museu Hermitage de São Petersburgo Inv. F 1450. Suzanne Higgotte (V. Bibliografia, p. 336) refere ainda uma placa semelhante na colecção do Duque de Home, apresentada na exposição "European Enamels", em Londres em 1897.
  • Origem/Historial: Integra uma série de esmaltes que pertenceu ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Presume-se que nesse santuário esta série adornava um altar de relíquias numa capela oratório. D. José de S. Bernardino, em 1752 num manuscrito ainda inédito, refere-se a um ornamento de "lemoge" (que se presume sejam estas placas) do seguinte modo: "… tudo assim posto sobre a Banqueta do Altar, q ornado de lemoge/ jarras e castisais [sic] tudo de prata fina batida e as Santas relíquias colocadas em bella/ forma e prespectiva [sic], tendo no alto a coroa de ouro do Espinho Sagrado"(BGUC - Ms 1603, f. 169, segundo SANTOS, 1998, v. bibliografia). Esta será, presume-se, a mais antiga alusão a esta série de esmaltes que se conhece. Em 1834 a série com vinte e seis placas entrou no acervo do então Museu Portuense de Pinturas e Estampas. Quando em 1914, na “Arte Religiosa em Portugal”, é reproduzida uma fotografia do conjunto, este encontra-se assente sobre um tabuleiro de madeira e encaixilhado com um perfil de madeira fino em meia cana, já nessa altura em muito mau estado, que terá entretanto desaparecido. Atribuições de data e autoria: Em 1914 Joaquim de Vasconcelos na “Arte Religiosa em Portugal” propõe a datação da primeira metade do século XVI e sugere a proveniência de Santa Cruz (informação que entretanto aparentemente se perdera), concretamente da Casa das Relíquias desse Mosteiro. Joaquim de Vasconcelos não adianta então qualquer hipótese de autoria. A apresentação da série de esmaltes na Exposição de Arte Francesa em Lisboa em 1934 dá-lhe visibilidade junto de especialistas nacionais e estrangeiros que nesse contexto a classificam como do 1º terço do Século XVI, da autoria de Jean Penicaud II (C. 1515-1588). Esta classificação será a daí em diante a que se manterá associada ao conjunto. Entretanto, nesse mesmo ano, Armando de Mattos avança o nome de Leonard Limousin (c. 1505 - c. 1577), como possível autor da série do Museu Portuense e definitivamente referencia-a ao Santuário de Coimbra. Em 1943 Rocha Madahil volta a mencionar a série de esmaltes na obra “Inventário do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra à data da sua extinção” reportando porém à descrição do “Termo de Entrega…” de 1834 à qual acrescenta a indicação de que seria comum dizer-se terem as 26 placas estado na banqueta do altar do Santuário de Santa Cruz. Em 1967 Philippe Verdier, no catálogo dos esmaltes renascentistas do Walters Art Museum, refere a série do Museu do Porto atribuindo-a a autor anónimo, mas considerando que se aproxima muito das primeiras obras de Leonard Limosin quando este trabalhava ainda na oficina de Nardon e Jean I Pénicaud. Em 1971, num texto publicado na Revista Museu, Maria Emília Amaral Teixeira, então directora do Museu Soares dos Reis, na sequência do contacto com Madeleine Marcheix, conservadora no Musée de L'Évêché de Limoges, revê a legendagem do conjunto. O texto fundamenta a decisão de manter a datação até aí convencionada, mas substituir a atribuição a Jean Penicaud II pela indicação de “autor anónimo”. Em 1993, Susan Carrosseli a série do Museu do Porto pondo a hipótese de se tratar de obra da autoria de Pierre Reymond (c. 1513-c.1584), baseando-se na aproximação formal e estilística entre esta série e obras assinadas desse artista. Em Janeiro de 2008 o Museu Soares dos Reis, em colaboração com Isabel Biron (do Centre de Recherche et Restauration des Musées de France - C2RMF) e Monique Blanc do Musée des Arts Decoratifs de Paris (MAD), candidatou-se ao programa europeu Eu-Artech que disponibiliza o acelerador de partículas instalado no CRRMF, no Museu do Louvre com o objectivo de sujeitar a série de esmaltes a análise semelhante à realizada em peças paralelas pertencentes à Wallace Collection, ao Musée de Beaux-Arts de Lyon (MBAL) e ao MAD, inscrevendo-a num banco de dados comum onde constam mais de 250 peças e obtendo informação mais rigorosa sobre o conjunto. O relatório da análise revelou que se trata de peças produzidas entre meados do século XVI e o início do século XVII (informação disponível para a comunidade científica, mas ainda inédita). O autor da série do Museu Soares dos Reis mantém-se por identificar, mas a análise supra mencionada e o estudo comparativo (BLANC 2011) propõe o agrupamento sob uma mesma autoria da série do Museu Soares dos Reis, uma placa do Museu Nacional de Arte Antiga, a série de 24 placas existente na Wallace Collection, duas placas avulsas do MAD, uma placa avulsa do MBAL e uma placa do Museu do Louvre. A este artista, que terá operado num atelier na esfera de Pierre Reymond, foi atribuído o nome de convenção de "Mestre do atelier da Paixão de Cristo".
  • Incorporação: Mandato legal. Confisco dos conventos após a sua extinção em 1834. Data do termo de entrega das pinturas e mais objectos para o Museu da Cidade do Porto
  • Centro de Fabrico: Limoges

Bibliografia

  • CAROSELLI, Susan L. - The Painted Enamels of Limoges. A Catalogue of the Los Angeles County Museum of Art. Los Angeles: Los Angeles County Museum of Art, 1993.
  • Catálogo Illustrado da Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portugueza e Hespanhola Celebrada em Lisboa em 1882 (...). Lisboa: Imprensa Nacional, 1882
  • MATTOS, Armando de - Os esmaltes limosinos do Museu Nacional de Soares dos Reis. Museu. I. Gaia: Ed. Pátria, 1934.
  • SANTOS, Paula M. Mesquita Leite - "A Paixão de Cristo em Esmaltes de Limoges". In Ai Confini della terra: scultura e arte in Portogallo 1300-1500 (cat. esp. no Palazzo dell'Arengo e Palazzo del Podestà 9 Ab.-3 Set.'00). Rimini: Electa, 2000, pp. 269, 270.
  • SANTOS, Paula M. Mesquita Leite - "Colecções Monásticas de Pintura no Museu Soares dos Reis". O Tripeiro. Porto: Associação Comercial, 7.ª série, ano XVI (1997), n.º 3, p. 86-91; idem, nº 4-5, p. 122-131; idem, n.ºs 6-7, pp. 192-198; idem, n.ºs 9-10, pp. 185-295; idem, n.ºs 11-12, pp. 342-350; 7.ª série, ano XVII (1998), n.º 1, pp. 12-21; idem, n.º 3, pp. 81-89; idem, n.º 4, pp. 114-120.
  • TEIXEIRA, Maria Emília Amaral - Nova tabela para os esmaltes limosinos do Museu Soares dos Reis. Museu, 2ª série, nº 14: (Ag.-Dez. de 1971)
  • VASCONCELOS, Joaquim de - Arte Religiosa em Portugal, vol.I. Porto: Emílio Biel e Cª Editores, 1914-1915
  • BLANC, Monique - Emaux peints de Limoges XVe-XVIIIe siècles, la collection du Musée des Arts décoratifs. Paris: Musée des Arts décoratifs, 2011
  • VERDIER, Philippe - Catalogue of the Painted Enamels of the Renaissance. Baltimore: The Walters Art Gallery, 1967
  • VERDIER, Philippe - Limoges enamels. in The Taft Museum: its history and collections. Cincinnati: The Taft Museum, 1995, Vol. II, 340-345

Exposições

  • Exposição de Arte Ornamental Portugueza e Hespanhola

    • Lisboa
    • Exposição Física
  • Ai Confini della terra: scultura e arte in Portogallo 1300-1500

    • Itália: Rimini. Palazzo dell'Arengo e Palazzo del Podestà
    • Exposição Física
  • O Sentido das Imagens. Escultura e Arte em Portugal [1300 - 1500]

    • Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga
    • Exposição Física

Obras relacionadas

Multimédia

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