Técnica: Esmalte pintado sobre cobre. Contra esmalte translúcido
Dimensões (cm): Alt. 10,1 x Larg. 8
Descrição: Representação do episódio bíblico designado Flagelação de Cristo
(Segundo: Mateus 27: 26; Marcos 15: 15; Lucas 23: 16; João 19: 1)
Cristo posicionado de frente para o observador, com os braços amarrados atrás de uma coluna, à direita um homem de costas, com o rosto de perfil, ergue o braço direito brandindo um chicote, à esquerda um outro homem, de frente, levanta o braço direito brandindo um flagelo, na mão esquerda segura uma corda. No plano seguinte, à esquerda, estão duas outras figuras, uma das quais com cabelo e barba brancos e ambas de turbante. O homem barbado cruza os braços sobre o peito, o outro aponta para o chão. As figuras de Cristo e dos flageladores estão num espaço coberto e sobre degraus, as outras duas no exterior. Ao fundo um trecho de muralha e casario e o céu estrelado. O pavimento sob as três figuras principais é decorado com flores de liz.
Diverge da gravura em que se inspira, da série da Pequena Paixão de Dürer, em aspectos de relevo como a colocação da figura de Cristo (que na gravura está de perfil e de frente para a coluna), a figura do esbirro à direita apresenta mais semelhanças com as figuras correspondentes numa gravura representando a flagelação da autoria de Martin Schongauer, embora se distinga pelo carácter mais estático das figuras, pela singeleza dos panejamentos e pela representação das chagas no corpo (ausentes nessa gravura). Diverge da gravura de Dürer ainda nos seguintes aspectos: na gravura ambos os esbirros têm as cabeças descobertas; a decoração do capitel é muito simples, os pavimentos e paredes são lisos. Na gravura há um terceiro personagem por trás dos dois homens à esquerda ausente nesta representação.
Na gravura há arvoredo junto aos edifícios.
Numa placa com a mesma representação pertencente à Wallace collection podemos ver o esbirro da direita em posição semelhante ao desta placa, embora parte do traje (calças) seja diferente e tenha barba. Na Placa da Wallace Collection Cristo tem um nimbo verde sem raios, tem as pernas flectidas e o corpo um pouco reclinado para a frente, alem disso tem um saio preso lateralmente com uma ponta suspensa.
Numa placa semelhante pertencente ao Los Angeles County Museum of Art o tecto do espaço interior é também decorado com flores de liz.
Placas semelhantes, com representação da Flagelação de Cristo segundo a gravura da Pequena Paixão de Dürer e passíveis de atribuição ao mesmo atelier: Uma placa no Metropolitan Museum , Nova Iorque (inv. nº 456027), segue rigorosamente o mesmo modelo embora com diferença na distribuição das figuras no espaço. Esta placa é classificada por Blanc 2011, p. 102 como sendo datável de 1560-70, mas consta no inventário on line do Museu como sendo provavelmente do século XIX; Wallace Collection (inv. c596) com diferenças relevantes na indumentária dos esbirros e na posição do corpo de um deles, na posição do corpo de Cristo, no capitel e coluna e nos padrões decorativos das superfícies; Uma placano Los Angeles County Museum of Art (inv. nº 51.1.1.2/4 ) com diferenças na posição do corpo de Cristo (essa placa segue o modelo da Pequena Paixão de Dürer), na posição de um dos esbirros, nos padrões decorativos e na figura que aponta para o chão, além do que, inclui um outro personagem por trás do ancião de braços cruzados (também à semelhança da gravura de Dürer), é muito semelhante à placa do MNSR na decoração do tecto com flores de liz e na decoração do capitel da coluna; uma placa na Wallace Collection (C596).
Origem/Historial: Integra uma série de esmaltes que pertenceu ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Presume-se que nesse santuário esta série adornava um altar de relíquias numa capela oratório. D. José de S. Bernardino, em 1752 num manuscrito ainda inédito, refere-se a um ornamento de "lemoge" (que se presume sejam estas placas) do seguinte modo: "… tudo assim posto sobre a Banqueta do Altar, q ornado de lemoge/ jarras e castisais [sic] tudo de prata fina batida e as Santas relíquias colocadas em bella/ forma e prespectiva [sic], tendo no alto a coroa de ouro do Espinho Sagrado"(BGUC - Ms 1603, f. 169, segundo SANTOS, 1998, v. bibliografia). Esta será, presume-se, a mais antiga alusão a esta série de esmaltes que se conhece. Em 1834 a série com vinte e seis placas entrou no acervo do então Museu Portuense de Pinturas e Estampas. Quando em 1914, na “Arte Religiosa em Portugal”, é reproduzida uma fotografia do conjunto, este encontra-se assente sobre um tabuleiro de madeira e encaixilhado com um perfil de madeira fino em meia cana, já nessa altura em muito mau estado, que terá entretanto desaparecido. Atribuições de data e autoria: Em 1914 Joaquim de Vasconcelos na “Arte Religiosa em Portugal” propõe a datação da primeira metade do século XVI e sugere a proveniência de Santa Cruz (informação que entretanto aparentemente se perdera), concretamente da Casa das Relíquias desse Mosteiro. Joaquim de Vasconcelos não adianta então qualquer hipótese de autoria. A apresentação da série de esmaltes na Exposição de Arte Francesa em Lisboa em 1934 dá-lhe visibilidade junto de especialistas nacionais e estrangeiros que nesse contexto a classificam como do 1º terço do Século XVI, da autoria de Jean Penicaud II (C. 1515-1588). Esta classificação será a daí em diante a que se manterá associada ao conjunto. Entretanto, nesse mesmo ano, Armando de Mattos avança o nome de Leonard Limousin (c. 1505 - c. 1577), como possível autor da série do Museu Portuense e definitivamente referencia-a ao Santuário de Coimbra. Em 1943 Rocha Madahil volta a mencionar a série de esmaltes na obra “Inventário do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra à data da sua extinção” reportando porém à descrição do “Termo de Entrega…” de 1834 à qual acrescenta a indicação de que seria comum dizer-se terem as 26 placas estado na banqueta do altar do Santuário de Santa Cruz. Em 1967 Philippe Verdier, no catálogo dos esmaltes renascentistas do Walters Art Museum, refere a série do Museu do Porto atribuindo-a a autor anónimo, mas considerando que se aproxima muito das primeiras obras de Leonard Limosin quando este trabalhava ainda na oficina de Nardon e Jean I Pénicaud. Em 1971, num texto publicado na Revista Museu, Maria Emília Amaral Teixeira, então directora do Museu Soares dos Reis, na sequência do contacto com Madeleine Marcheix, conservadora no Musée de L'Évêché de Limoges, revê a legendagem do conjunto. O texto fundamenta a decisão de manter a datação até aí convencionada, mas substituir a atribuição a Jean Penicaud II pela indicação de “autor anónimo”. Em 1993, Susan Carrosseli a série do Museu do Porto pondo a hipótese de se tratar de obra da autoria de Pierre Reymond (c. 1513-c.1584), baseando-se na aproximação formal e estilística entre esta série e obras assinadas desse artista. Em Janeiro de 2008 o Museu Soares dos Reis, em colaboração com Isabel Biron (do Centre de Recherche et Restauration des Musées de France - C2RMF) e Monique Blanc do Musée des Arts Decoratifs de Paris (MAD), candidatou-se ao programa europeu Eu-Artech que disponibiliza o acelerador de partículas instalado no CRRMF, no Museu do Louvre com o objectivo de sujeitar a série de esmaltes a análise semelhante à realizada em peças paralelas pertencentes à Wallace Collection, ao Musée de Beaux-Arts de Lyon (MBAL) e ao MAD, inscrevendo-a num banco de dados comum onde constam mais de 250 peças e obtendo informação mais rigorosa sobre o conjunto. O relatório da análise revelou que se trata de peças produzidas entre meados do século XVI e o início do século XVII (informação disponível para a comunidade científica, mas ainda inédita). O autor da série do Museu Soares dos Reis mantém-se por identificar, mas a análise supra mencionada e o estudo comparativo (BLANC 2011) propõe o agrupamento sob uma mesma autoria da série do Museu Soares dos Reis, uma placa do Museu Nacional de Arte Antiga, a série de 24 placas existente na Wallace Collection, duas placas avulsas do MAD, uma placa avulsa do MBAL e uma placa do Museu do Louvre. A este artista, que terá operado num atelier na esfera de Pierre Reymond, foi atribuído o nome de convenção de "Mestre do atelier da Paixão de Cristo".
Incorporação: mm
Centro de Fabrico: Limoges
Bibliografia
CAROSELLI, Susan L. - The Painted Enamels of Limoges. A Catalogue of the Los Angeles County Museum of Art. Los Angeles: Los Angeles County Museum of Art, 1993.
Catálogo Illustrado da Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portugueza e Hespanhola Celebrada em Lisboa em 1882 (...). Lisboa: Imprensa Nacional, 1882
MATTOS, Armando de - Os esmaltes limosinos do Museu Nacional de Soares dos Reis. Museu. I. Gaia: Ed. Pátria, 1934.
SANTOS, Paula M. Mesquita Leite - "A Paixão de Cristo em Esmaltes de Limoges". In Ai Confini della terra: scultura e arte in Portogallo 1300-1500 (cat. esp. no Palazzo dell'Arengo e Palazzo del Podestà 9 Ab.-3 Set.'00). Rimini: Electa, 2000, pp. 269, 270.
SANTOS, Paula M. Mesquita Leite - "Colecções Monásticas de Pintura no Museu Soares dos Reis". O Tripeiro. Porto: Associação Comercial, 7.ª série, ano XVI (1997), n.º 3, p. 86-91; idem, nº 4-5, p. 122-131; idem, n.ºs 6-7, pp. 192-198; idem, n.ºs 9-10, pp. 185-295; idem, n.ºs 11-12, pp. 342-350; 7.ª série, ano XVII (1998), n.º 1, pp. 12-21; idem, n.º 3, pp. 81-89; idem, n.º 4, pp. 114-120.
TEIXEIRA, Maria Emília Amaral - Nova tabela para os esmaltes limosinos do Museu Soares dos Reis. Museu, 2ª série, nº 14: (Ag.-Dez. de 1971)
VASCONCELOS, Joaquim de - Arte Religiosa em Portugal, vol.I. Porto: Emílio Biel e Cª Editores, 1914-1915
BLANC, Monique - Emaux peints de Limoges XVe-XVIIIe siècles, la collection du Musée des Arts décoratifs. Paris: Musée des Arts décoratifs, 2011