Técnica: Esmalte pintado sobre cobre. Contra esmalte translúcido
Dimensões (cm): Alt. 10,1 x Larg. 8
Descrição: Representação da aparição de Cristo ressuscitado a sua Mãe
Conforme descrito nas obras "Meditações sobre a vida de Cristo" do Pseudo-Boaventura (ou Fr. João de Caulibus) de c. 1308 e "Marienleben" de Filipe o Cartuxo, de c. de 1330.
Num espaço interior, a figura de Cristo com o corpo coberto com um manto, a cabeça nimbada e segurando um estandarte, caminha da esquerda para a direita com a mão erguida, abençoando (?). À esquerda, sob um dossel com cortinas brancas, a Virgem, representada jovem, com a cabeça nimbada, com longos cabelos ondulados, aparecendo sob o véu que lhe cobre a cabeça, com as mãos em prece, ajoelha num genuflexório sobre o qual está um livro aberto. Todas as superfícies são ricamente decoradas: os frisos do dossel, o interior da cobertura (com flores de liz), o tecto do compartimento com padrão floral geometrizado, os alçados do genuflexório e de um banco ao fundo com relevos figurados e os coxins pousados num banco junto à Virgem.
A imagem segue de perto a gravura de A. Dürer da Pequena Paixão, em que se inspira, divergindo da mesma nos seguintes aspectos:a forma dos nimbos, todos os detalhes de decoração (omissos na gravura), localização do coxim (na gravura está por trás da figura, na placa ao seu lado), na representação de um firmal aplicado junto ao pescoço da Virgem e de uma porta que se abre ao fundo à direita no compartimento (ausentes na gravura).
A cena não é representada em nenhuma das placas conhacidas, subsistentes de outras séries segundo a Pequena Paixão de Dürer e passíveis de atribuição ao mesmo atelier.
Origem/Historial: Integra uma série de esmaltes que pertenceu ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
Presume-se que nesse santuário esta série adornava um altar de relíquias numa capela oratório. D. José de S. Bernardino, em 1752 num manuscrito ainda inédito, refere-se a um ornamento de "lemoge" (que se presume sejam estas placas) do seguinte modo: "… tudo assim posto sobre a Banqueta do Altar, q ornado de lemoge/ jarras e castisais [sic] tudo de prata fina batida e as Santas relíquias colocadas em bella/ forma e prespectiva [sic], tendo no alto a coroa de ouro do Espinho Sagrado"(BGUC - Ms 1603, f. 169, segundo SANTOS, 1998, v. bibliografia). Esta será, presume-se, a mais antiga alusão a esta série de esmaltes que se conhece.
Em 1834 a série com vinte e seis placas entrou no acervo do então Museu Portuense de Pinturas e Estampas. Quando em 1914, na “Arte Religiosa em Portugal”, é reproduzida uma fotografia do conjunto, este encontra-se assente sobre um tabuleiro de madeira e encaixilhado com um perfil de madeira fino em meia cana, já nessa altura em muito mau estado, que terá entretanto desaparecido.
Atribuições de data e autoria:
Em 1914 Joaquim de Vasconcelos na “Arte Religiosa em Portugal” propõe a datação da primeira metade do século XVI e sugere a proveniência de Santa Cruz (informação que entretanto aparentemente se perdera), concretamente da Casa das Relíquias desse Mosteiro. Joaquim de Vasconcelos não adianta então qualquer hipótese de autoria.
A apresentação da série de esmaltes na Exposição de Arte Francesa em Lisboa em 1934 dá-lhe visibilidade junto de especialistas nacionais e estrangeiros que nesse contexto a classificam como do 1º terço do Século XVI, da autoria de Jean Penicaud II (C. 1515-1588). Esta classificação será a daí em diante a que se manterá associada ao conjunto. Entretanto, nesse mesmo ano, Armando de Mattos avança o nome de Leonard Limousin (c. 1505 - c. 1577), como possível autor da série do Museu Portuense e definitivamente referencia-a ao Santuário de Coimbra.
Em 1943 Rocha Madahil volta a mencionar a série de esmaltes na obra “Inventário do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra à data da sua extinção” reportando porém à descrição do “Termo de Entrega…” de 1834 à qual acrescenta a indicação de que seria comum dizer-se terem as 26 placas estado na banqueta do altar do Santuário de Santa Cruz.
Em 1967 Philippe Verdier, no catálogo dos esmaltes renascentistas do Walters Art Museum, refere a série do Museu do Porto atribuindo-a a autor anónimo, mas considerando que se aproxima muito das primeiras obras de Leonard Limosin quando este trabalhava ainda na oficina de Nardon e Jean I Pénicaud.
Em 1971, num texto publicado na Revista Museu, Maria Emília Amaral Teixeira, então directora do Museu Soares dos Reis, na sequência do contacto com Madeleine Marcheix, conservadora no Musée de L'Évêché de Limoges, revê a legendagem do conjunto. O texto fundamenta a decisão de manter a datação até aí convencionada, mas substituir a atribuição a Jean Penicaud II pela indicação de “autor anónimo”.
Em 1993, Susan Carrosseli a série do Museu do Porto pondo a hipótese de se tratar de obra da autoria de Pierre Reymond (c. 1513-c.1584), baseando-se na aproximação formal e estilística entre esta série e obras assinadas desse artista.
Em Janeiro de 2008 o Museu Soares dos Reis, em colaboração com Isabel Biron (do Centre de Recherche et Restauration des Musées de France - CRRMF) e Monique Blanc do Musée des Arts Decoratifs de Paris (MAD), candidatou-se ao programa europeu Eu-Artech que disponibiliza o acelerador de partículas instalado no CRRMF, no Museu do Louvre com o objectivo de sujeitar a série de esmaltes a análise semelhante à realizada em peças paralelas pertencentes à Wallace Collection, ao Musée de Beaux Arts de Lyon (MBAL) e ao MAD, inscrevendo-a num banco de dados comum onde constam mais de 250 peças e obtendo informação mais rigorosa sobre o conjunto.
O relatório da análise revelou que se trata de peças produzidas entre meados do século XVI e o início do século XVII (informação disponível para a comunidade científica, mas ainda inédita).
O autor da série do Museu Soares dos Reis mantém-se por identificar, mas a análise supra mencionada e o estudo comparativo (BLANC 2011) propõe o agrupamento sob uma mesma autoria da série do Museu Soares dos Reis, uma placa do Museu Nacional de Arte Antiga, a série de 24 placas existente na Wallace Collection, duas placas avulsas do MAD, uma placa avulsa do MBAL e uma placa do Museu do Louvre. A este artista, que terá operado num atelier na esfera de Pierre Reymond, foi atribuído o nome de convenção de "Mestre do atelier da Paixão de Cristo".
Incorporação: Fundo Antigo do Museu, proveniente do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (santuário) tendo sido incorporada no Antigo Museu Portuense de Pinturas e Estampas em 1834, na sequência da extinção das ordens religiosas.
Centro de Fabrico: Limoges
Bibliografia
CAROSELLI, Susan L. - The Painted Enamels of Limoges. A Catalogue of the Los Angeles County Museum of Art. Los Angeles: Los Angeles County Museum of Art, 1993.
Catálogo Illustrado da Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portugueza e Hespanhola Celebrada em Lisboa em 1882 (...). Lisboa: Imprensa Nacional, 1882
MATTOS, Armando de - Os esmaltes limosinos do Museu Nacional de Soares dos Reis. Museu. I. Gaia: Ed. Pátria, 1934.
SANTOS, Paula M. Mesquita Leite - "A Paixão de Cristo em Esmaltes de Limoges". In Ai Confini della terra: scultura e arte in Portogallo 1300-1500 (cat. esp. no Palazzo dell'Arengo e Palazzo del Podestà 9 Ab.-3 Set.'00). Rimini: Electa, 2000, pp. 269, 270.
SANTOS, Paula M. Mesquita Leite - "Colecções Monásticas de Pintura no Museu Soares dos Reis". O Tripeiro. Porto: Associação Comercial, 7.ª série, ano XVI (1997), n.º 3, p. 86-91; idem, nº 4-5, p. 122-131; idem, n.ºs 6-7, pp. 192-198; idem, n.ºs 9-10, pp. 185-295; idem, n.ºs 11-12, pp. 342-350; 7.ª série, ano XVII (1998), n.º 1, pp. 12-21; idem, n.º 3, pp. 81-89; idem, n.º 4, pp. 114-120.
TEIXEIRA, Maria Emília Amaral - Nova tabela para os esmaltes limosinos do Museu Soares dos Reis. Museu, 2ª série, nº 14: (Ag.-Dez. de 1971)
VASCONCELOS, Joaquim de - Arte Religiosa em Portugal, vol.I. Porto: Emílio Biel e Cª Editores, 1914-1915
BLANC, Monique - Emaux peints de Limoges XVe-XVIIIe siècles, la collection du Musée des Arts décoratifs. Paris: Musée des Arts décoratifs, 2011